Fábulas do tempo e da eternidade

Fábulas do tempo e da eternidade

Cristina Lasaitis
Editora Dandelion
176 páginas
Lançado em 2008 pela Tarja Editorial

A literatura brasileira de fantasia e ficção científica tem mostrado uma vitalidade que lhe faltava desde o fim dos anos 60, quando se esgotou a novidade da chamada Primeira Onda. Houve novos autores e obras dignas de menção nas últimas três décadas do século que passou, mas a chamada Segunda Onda, em comparação à anterior, mais pareceu uma marola, menos por falta de talento e empenho dos autores do que pelas condições desfavoráveis.

Desde o início do milênio, novos escritores e novas obras têm surgido em um ritmo que, mais que firme, parece crescer em quantidade e qualidade, superando décadas de lamentos e frustrações. O gênero consegue novamente ser publicado fora de fanzines dirigidos a círculos estreitos e rígidos. Com mais retorno de leitores e editoras e mais diálogo a estimular a produção e o desenvolvimento técnico dos autores, a ficção especulativa brasileira está deixando de ser uma seita para voltar a ser um gênero capaz de interessar leitores com algum gosto, iniciados ou não. Muita coisa continua e continuará medíocre, como em qualquer ramo da literatura e da arte. Mas também há textos que merecem ser lidos.

Destas novas safras, não há como deixar de recomendar Fábulas do tempo e da eternidade. Primeiro livro da iniciante Cristina Lasaitis, nascida em 1983, pouco ou nada deixa a dever às melhores obras da ficção especulativa brasileira. Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury, ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley, teriam orgulho de poder contar com um ou outro desses contos entre suas primeiras obras.

Com muita sensibilidade, doze contos exploram personagens ricos e insólitos que se debatem com o tema do tempo e dos limites que lhe são postos pela condição mortal humana ou mesmo algo mais que humana, em diferentes universos imaginários da ficção científica e da fantasia.

Há mundos futuros regidos pela realidade virtual mais complicada que a de Matrix, alquimistas atrás de uma maneira de driblar o tempo, capaz de superar o velho elixir da longa vida, um inca obcecado pelo futuro de seu império, uma cientista que assassina o tempo, intelectuais frustrados na noite paulistana, uma vida solidária e duríssima em um deserto de Atacama pós-apocalíptico, e duas entidades inimagináveis de zilhões de anos no futuro a enfrentar juntas os últimos momentos de um universo entrópico a dar seu derradeiro suspiro. Há até um mundo de caçadores especializados em desvirginar anjos (daqueles mesmos que têm asinhas e costumavam viver no céu).

Seria exagero dizer que há para todos os gostos: não se encontram heróis invencíveis e insensíveis, caçadores de tesouros e recompensas, ou exaltações bélicas contra monstros de olhos esbugalhados. Mas a variedade é impressionante.

O ponteiro do relógio passa da fantasia mágica mais delirante à ficção científica mais rigorosa, e nesta o estado da arte do conhecimento e da especulação teórica é levado a sério de maneira pouco comum nos autores brasileiros (principalmente os da Primeira Onda). Em todos os casos tratam-se de histórias escritas com sensibilidade, verossimilhança e muito carinho e respeito pelo leitor exigente. Várias delas parecem completar-se mutuamente, sugerindo um quebra-cabeça que se estende do começo ao fim dos tempos, a ser ampliado por futuros desenvolvimentos.

Surgem situações das mais insólitas, como apenas o sonho mais desregrado ou a ciência mais disciplinada podem conceber, mas o foco está sempre em como podem ser vividas com sentimentos humanos, dos mais delicados aos mais brutos. É uma ficção científica orgulhosamente humanista dentro da melhor tradição brasileira do gênero, escrita sem concessões às tentativas de imitar clichês hollywoodianos que agradam um público fiel, mas embotam a veracidade e empobrecem a criatividade do gênero.

Antonio Luiz M. C. Costa é jornalista e ficcionista, autor dos romances da série Crônicas de Atlântida.

[ Resenha publicada originalmente na revista Carta Capital. ]

Dom Casmurro e os discos voadores

Dom Casmurro e os discos voadores

Lúcio Manfredi
Editora Leya
264 páginas
Lançado em 2010

Desde o lançamento de Orgulho e preconceito e zumbis, de Seth Grahame-Smith, o mundo literário tem sido sacudido por uma onda de mashups de clássicos da literatura com elementos fantásticos; na sequência vieram: Razão e sensibilidade e monstros marinhos, Android Karenina, Jane Slayre e outros títulos. O sucesso foi tão grande que, até o término desta resenha, soube que Orgulho e preconceito e zumbis estava ganhando uma adaptação cinematográfica!

A proposta dessa novíssima – se é que já dá para chamá-la assim: – vanguarda é, segundo o próprio Grahame-Smith: “Transformar o clássico da literatura em algo que você gostaria de ler!” O conceito do mashup é conservar parte do texto original e misturar com outros elementos, dando uma nova roupagem à história. Por isso o mashup pode ser classificado dentro do gênero ficção alternativa. Essa onda chegou ao Brasil e, em 2010, a editora Leya lançou o selo Lua de Papel de clássicos fantásticos escritos por brasileiros, entre eles Dom Casmurro e os discos voadores. Na minha opinião, uma das melhores obras dessa safra.

Lúcio Manfredi é roteirista de televisão e nos últimos anos trabalhou no roteiro de seriados e novelas da rede Globo, como Ciranda de pedra e A casa das sete mulheres. Não é preciso dizer que ele sabe escrever cenas memoráveis, Machado de Assis não poderia ter encontrado melhor co-autor.

O romance não é literalmente um mashup, porque pouquíssimo do texto original foi mantido. Lúcio reescreveu a saga inteira de Dom Casmurro na sua própria linguagem leve e graciosa. Exatamente como no clássico de Machado, em Dom Casmurro e os discos voadores o jovem Bentinho está predestinado desde o útero a seguir a carreira de padre − uma promessa feita por sua mãe, dona Glória −, sendo que o menino não está nem um pouco inclinado ao sacerdócio, seja por vontade ou vocação, e acrescente ainda que ele está enfeitiçado pelos “olhos de ressaca” de sua amiga de infância e protonamorada, Capitu.

As diferenças do romance original começam com a caracterização dos personagens: José Dias, o agregado, é um homem muito preciso, com engrenagens e articulações mecânicas; Capitu tem defeitos de nascença e atitudes esquisitas; e o tio Cosme não sai da frente do telescópio e diz ver coisas inexplicáveis no céu. Bentinho testemunha uma sequência de acontecimentos estranhos que o acompanham desde a infância na casa da rua de Matacavalos até os seus estudos no seminário; vê-se pivô de uma conspiração estranhíssima da qual participam todas as pessoas que o cercam, mas que ele não compreende e, de início, nem desconfia que os seus problemas, na verdade, vêm de Sirius…

Respeitando a tradição das ironias machadianas, não poderia faltar uma boa dose de humor, o que torna a leitura desse livro simplesmente deliciosa. E para quem é bom em captar referências, ele ainda reserva uma homenagem implícita ao autor preferido do Lúcio.

Cristina Lasaitis é biomédica e ficcionista, autora de Fábulas do tempo e da eternidade.

Dezoito de Escorpião

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Alexey Dodsworth
Editora Draco
324 páginas
Lançado em 2014 pela editora Novo Século

Talvez não soe estranha aos seus ouvidos a afirmação de que o Brasil não produz boas obras de ficção científica. Desde que passei a me interessar por literatura tenho escutado esse clichê sendo reproduzido mecanicamente, em parte por um histórico que nos dá a impressão de uma verdadeira escassez de obras nacionais, em parte por comparações (talvez injustas?) com o mercado de língua inglesa, mas certamente por desconhecimento do trabalho dos autores brasileiros somado a um crônico ceticismo acerca da nossa capacidade literária. Por isso, o único conselho possível é leia! Leia autores nacionais de ficção científica e fantasia e verá que temos, sim, algo de que nos orgulhar.

Dentre os melhores argumentos que posso oferecer está Dezoito do Escorpião, o romance de ficção científica de Alexey Dodsworth.

Para tentar dar um gostinho do livro sem cometer spoilers… O título Dezoito do Escorpião vem de uma estrela na constelação de Escorpião, que foi identificada como uma gêmea do sol capaz de possuir planetas em zona habitável.

No livro acompanhamos a trajetória de Arthur, um jovem estudante brasileiro às voltas com um problema de saúde bizarro: sua hipersensibilidade eletromagnética (HEM), que faz com que tenha enxaquecas terríveis ao menor contato com ondas eletromagnéticas. Um dia, após sofrer uma crise, vem a Arthur a figura enigmática do doutor Ravi Chandrasekhar propondo-lhe a experiência radical de viver em uma comunidade distante, à semelhança de um experimento social inovador, com a condição de que Arthur concorde em ir para lá sem saber sua localização e sem nunca poder sair à noite… e olhar as estrelas.

Arthur aceita a oferta, e em sua jornada ele se verá na companhia de outras pessoas notáveis, também portadoras de HEM, como Laura, Martin e muitos outros – inclusive alguns personagens reais transportados para essas páginas com o expediente de a nossa realidade tantas vezes concorrer com a ficção. Por trás de um projeto de dimensões galácticas, está a Areté, uma organização pós-humana de conhecimentos avançados liderada pelo próprio Ravi Chandrasekhar, e seus objetivos que elevam a humanidade para um patamar muito próximo da verdade cósmica que se poderia chamar de Deus.

Dezoito do Escorpião é um romance brasileiro de uma engenhosidade fascinante, com um cenário multicultural e internacional; uma ficção científica que bebe fartamente nas mais diversas áreas das ciências naturais e humanas, explora com rigor uma quantidade enorme de fatos reais curiosos e encontra referências até nas páginas dos noticiários policiais. O livro possui aquele elemento que os apreciadores de FC & F tanto amam, o sense of wonder. Como ótimo escritor que é, Alexey tem a perspicácia de redigir a jornada rumo a outros mundos conseguindo, ao mesmo tempo, projetar um olhar extremamente lúcido sobre o estado de coisas do nosso país e do mundo globalizado.

Dezoito do Escorpião é leitura obrigatória para qualquer fã de ficção científica. Aliás, é aquele livro que eu daria mesmo para quem diz não gostar de FC & F, mas faz questão de viajar nas páginas de uma boa história.

Cristina Lasaitis é ficcionista e biomédica, autora de Fábulas do tempo e da eternidade.