Páginas do futuro

Páginas do futuro

Seleção e apresentação de Braulio Tavares
Ilustrações de Romero Cavalcanti
Editora Casa da Palavra
152 páginas
Lançado em 2011

Qual a cara da ficção científica brasileira? Quem são seus principais escritores no território nacional? Em que pé ela se encontra hoje?

Sem a pretensão de dar uma resposta definitiva para estas perguntas, ou mesmo constituir um cânone literário nacional, o escritor e especialista no tema, Braulio Tavares, no ano de 2011 reuniu alguns dos mais representativos contos produzidos por estas bandas.

Desde Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), passando pelo modernista Oswald Beresford (?-1924), e chegando até o camaleônico Luiz Bras (1966), são quase cento e cinquenta anos de produção literária, que permitem reconhecermos uma trajetória muito bem consolidada para o gênero no país.

Ao longo de todos os contos, percebemos que estilos e temas variam entre os vários escritores brasileiros. Mesmo assim, segundo o organizador da coletânea, duas tendências parecem ter se configurado de forma definitiva: a que trata de um espaço selvagem e a ficção de caráter mais utópico e satírico.

Através da leitura fica fácil percebermos isso ao notarmos que as duas vertentes citadas nem sempre estiveram tão distantes uma da outra. A união entre elas ocorreu com certa frequência, fosse de maneira esporádica, fosse se aproximando de forma quase simbiótica. Um casamento feliz, que traria momentos ricos para os textos, como podemos notar, por exemplo, no conto de Raquel de Queiroz.

Logo, fica claro que o riso tropical, em um futuro pós-humano, se apresenta como uma das marcas que balizam a ficção científica nacional, contrastando com um caráter mais duro quando comparada com outras correntes, como aquelas desenvolvidas com maestria no mundo anglo-saxão.

Ora, se entre ingleses e americanos o pessimismo e uma certa visão apocalíptica delineiam enredos, por outro lado um certo olhar crítico-mordaz sobre nosso futuro-presente parece estar sempre ali na ficção científica à brasileira. Uma suposição para isso: talvez a herança lusitana (sem a melancolia que caracteriza os portugueses) de criticar tudo e todos. Outra: o retrato das contínuas instabilidades políticas e dos surtos econômicos pelos quais o Brasil de tempos em tempos atravessa. Em suma, uma questão ainda em aberto.

De qualquer forma, os doze escritores reunidos permitem constatarmos que na ficção científica brasileira existe uma busca constante pela leveza nos assuntos tratados. Os conteúdos insólitos e distópicos são apresentados em todos os contos com uma prosa fluída, que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

Ao mesmo tempo, na obra, notamos uma paisagem ficcional por demais masculina, onde conflitos e temas do mundo do homem são o contexto, o pano de fundo das histórias. A presença de apenas duas autoras mulheres (Rachel de Queiroz e Finisia Fideli) parece mais como uma tentativa de escapar destes enfoques. Interessante notar que, no texto de Finisia, aspectos da religião oriental contemporânea aparecem como fio condutor de sua trama, o que a aproxima dos leitores atuais. Talvez esteja aí um dos desafios para uma futura nova coletânea. Encontrar vozes femininas, mas também da comunidade LGBT, com contextos religiosos variados, que ampliem o escopo multiétnico e multivocal da ficção científica.

Por fim, como uma sugestão para o leitor, proponho uma pequena brincadeira. Em todo início de conto, Braulio Tavares apresenta uma pequena biografia do escritor, que permite situar a obra no tempo e no espaço. Sugiro que não leia e parta direto para o conto. Tente imaginar, ao final da leitura, se você consegue situar cronologicamente o período de produção do conto. Depois, monte uma tabela com sua tentativa e compare com o sumário. Alguns serão facilmente datados, outros nem tanto. Se tiver tempo, mande o resultado por e-mail, para vermos como você se saiu.

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Tobias Vilhena é arqueólogo e ficcionista, e um dos autores da coletânea Eros ex machina, sobre robôs sexuais.

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Favelost

Favelost

Fausto Fawcett
Editora Martins Fontes
248 páginas
Lançado em 2012

“Favelost é o contrário de Canudos, ou do Contestado, ou da Comuna de Paris, ou da Pedra do Reino, ou de Christiania na Dinamarca, ou qualquer outra utopia advinda dos sentimentos de pureza humana, do messianismo cristão celerado, da fantasia de que todos nascem bons e são deformados pela sociedade, mantra dos fofos existenciais e dos esquerdofrênicos cafajestes do imagine all the people em geral querendo a revolução que passa por cima do primado das leis.” (página 31)

Em Favelost deve-se entrar com os dois pés, e de sola. Nada da leitura estrutural, pausada e densa, como pedem os textos dos pensadores frankfurtianos que o autor, Fausto Fawcett, critica mais de uma vez na narrativa. Para alcançar a ascese que o livro constrói em seu ritmo frenético, é preciso fazer o trajeto entre Rio e São Paulo de um só fôlego.

Nessa distopia cínica e sexy, as duas cidades já não existem separadas, tornaram-se Rio Paulo de Janeiro São, ligadas por um conglomerado de casas paupérrimas, microindústrias clandestinas e pontos comerciais que tomaram a Via Dutra. É a Mancha Urbana. Ou a Favelost, território da hipérbole capitalista tecnológica por excelência.

Quase como um ritual alucinógeno, o romance rompe as sinapses coloquiais do leitor. Como um Bret Easton Ellis futurista brasileiro, Fawcett consegue esse efeito pela saturação estilística de sua verborragia pulsante, em mash-ups de referências pop; de períodos históricos; de gadgets; de práticas sexuais das mais comuns às mais bizarras; de correntes políticas, sociais, místicas e filosóficas; de cânones culturais; e uma infinidade mais de temas. Depois de tantas imagens bizarras maximizadas e perfiladas sem descanso uma após a outra, quem mergulha na aventura de Júpiter Alighieri e Eminência Paula sai num leve nirvana, em paz com o caos da existência diária.

Os protagonistas são membros de uma organização chamada Intensidade Vital, que deve manter a ordem entre a população de Favelost. Esse conglomerado urbano, meio clandestino, meio Eldorado do mal, não é aberto a qualquer um. Só às pessoas que buscam o Mefistófeles em cada entrada escondida, tentando arrefecer um desejo indefinido e angustiante para o qual as benesses da vida comum não bastam. E o casal humano, mas com um quê de androides de Blade runner, tem vinte e quatro horas para se encontrar, fazer sexo e chegar ao orgasmo que vai desarmar o chip autodestrutivo implantado em seus corpos.

Com agudeza e sem dó, Fawcett desmonta as certezas atávicas da normatividade ao construir um caleidoscópio de imagens sedutoras e horripilantes, a exemplo de sua declarada inspiração, Hieronymus Bosch e seu Jardim das delícias terrenas (pintura que ilustra a capa do livro).

A cada instante o leitor é confrontado com suas próprias pulsões diante de cenas de vingança, sexo, fraqueza ou nostalgia. Assim é levado a questões complexas que o autor enxerta subliminarmente na ação. Se o niilismo anda à espreita a cada curva, há sempre o contato humano, coroado pelo sexo, para lembrar a graça da vida. Como Fawcett define, cria-se o território da disputopia.

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Luciana Pareja Norbiato é jornalista cultural, ensaísta e assessora de imprensa.

[ Resenha publicada originalmente na revista Select. ]

Santa Clara Poltergeist

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Fausto Fawcett
Editora Eco
184 páginas
Lançado em 1991

Não é segredo: considero Santa Clara Poltergeist o romance brasileiro mais importante da década de 90. Não conheço outro mais fascinante ou original (exatamente: original, no contexto tupiniquim) que o romance de estreia de Fausto Fawcett, lançado no despontar da década. Ainda não tenho a nova edição, da Arte & Letra. Então releio regularmente a primeira, da obscura editora Eco, cheia de gralhas e sustos ortográficos e sintáticos.

O mais viciante nesse transe tecnopornô pós-sapiens do Fawcett é a fusão de enredo estapafúrdio, circense mesmo, e linguagem delirante, formando um casal em perfeito equilíbrio amoroso: o enredo excitando a linguagem, a linguagem excitando o enredo, ambos gozando juntos num vaivém sadomasoquista. Conjunção que não acontece nos discos do músico performático, não de maneira tão orgânica e intensa. Santa Clara Poltergeist é um soco certeiro na cara chata do nosso proverbial realismo-naturalismo.

Esse transe tecnopornô pós-sapiens narra as desventuras escatológicas do paulista Mateus, um eletroblack (eletricista negro), e da catarinense Verinha Blumenau, reencarnação da europeia Santa Clara Poltergeist, numa Copacabana alterada por uma “falha magnética baixa”, fenômeno eletromagnético de natureza física e metafísica.

Dizer que o negão Mateus e a loirinha Verinha − arranjo clássico dos filmes de sacanagem − são ciborgues paranormais num pesadelo tupinipunk (o ciberpunk brasileiro, segundo Roberto de Sousa Causo) é simplificar demais sua condição. Na verdade, tentar resumir os personagens excêntricos e o enredo mirabolante seria perda de tempo, porque eles escapam feito um fractal mediúnico, repetindo e se multiplicando em todas as direções visíveis e invisíveis.

Fausto não é do tipo mais comum de escritor de ficção fantástica ou científica, que primeiramente constrói um cenário reconhecível, no qual o leitor possa se instalar confortavelmente, para em seguida injetar o elemento insólito que arrastará esse leitor pra fora de sua zona de conforto. Nada é reconhecível ou confortável em Santa Clara Poltergeist. Não existe zona de conforto na jornada parapsicológica de Mateus e Verinha. Tudo é bizarro o tempo todo, em alta velocidade. Tudo é Sodoma e Gomorra.

O romance é narrado no tempo presente, meu tempo predileto, menos comum em nossa ficção que o tempo passado. É narrado em terceira pessoa por uma voz onisciente, mas descontraída, às vezes desleixada, que se desvia constantemente da linha narrativa principal. Todo o encanto do estilo único do Fausto emana desse narrador volúvel, cuja atenção explicativa escorrega de uma história a outra, depois a outra, antes de voltar à avenida principal e passar a outra história, depois a outra…

Creditado ao designer Jorge Cassol, a edição da editora Eco oferece um projeto gráfico bastante audacioso pra época em que o livro foi lançado. O fluxo de texto é pressionado por tarjas verticais e cinco dezenas de fotogravuras em meio-tom. As fotogravuras compõem uma espécie de fotonovela subjetiva expressionista. São imagens fragmentárias em baixa definição (pontos grandes, baixa densidade), em preto e branco, tiradas de catálogos, manuais e revistas vagabundas (a maioria pornô).

Essa fotonovela fragmentária não ilustra nem traduz visualmente a pujança futurista do romance. Mas a justaposição causa um efeito drástico eficiente. De uma maneira inesperada, a poética verbal e a não verbal se influenciam positivamente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.