Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

Só o tempo pode confirmar essas coisas, mas a antologia Fractais tropicais tem tudo pra se tornar um verdadeiro marco da ficção científica brasileira.

Em escopo, creio se tratar da mais abrangente do gênero, selecionando trinta autores de todas as convencionadas Ondas da FCB, excetuando os precursores do início do século (a Primeira Onda acontece entre 1960 e 1980, em torno das Edições GRD de Gumercindo Rocha Dorea; a Segunda entre 1980 e 2000, época prolífica dos zines e do Clube de Leitores de Ficção Científica; a Terceira a partir dos anos 2000, com a popularização da internet).

Em design, o livro foge dos clichês do gênero, que ficou marcado pelas capas algo espalhafatosas das revistas pulp norte-americanas, que podem agradar os fãs mas fazem inúmeros leitores de fora da bolha torcer o nariz. É um catatau de quinhentas páginas com quase nada de erros de revisão (marca que assola um mercado dominado por edições sem o apuro necessário), com diagramação atraente, minibios espirituosas e uma introdução de respeito.

A principal reivindicação de Nelson de Oliveira, o organizador da antologia, é a libertação da imposta marginalidade do gênero no país, considerado inferior, ou o que é pior, invisível. Não é uma discussão nova e tampouco exclusiva do Brasil, mas aqui há uma singularidade: enquanto lá fora a ficção científica é um gênero sadio e lucrativo (vide o próprio sucesso das traduções do gênero em solo brasileiro), a produzida aqui é ainda tímida e inexpressiva em visibilidade e vendas. Para tentar alterar o status-quo, Oliveira aponta como exemplo as boas obras do campo, as que realmente se sustentam longe do seu reduto, e apresenta como argumento uma verdade incontornável: já vivemos em um mundo de ficção científica, indissociável da tecnologia, e negar isso é negar a realidade.

O surgimento da Fractais Tropicais no final de 2018 não é mero acidente de percurso. É uma culminação do movimento pelo reconhecimento, pela visibilidade, encabeçado por um agente numa posição única, cujo protagonismo e bagagem conferem peso e credibilidade à sua defesa crítica (importante lembrar que Oliveira não é o único defensor do gênero; há todo um coletivo — cada vez mais robusto — de pessoas lutando pela mesma causa, com diferentes históricos e contribuições). Essa retórica é, não por acaso, destrinchada na introdução da antologia, que carrega ainda o mérito de aclimatar um leitor que não tem intimidade com o gênero e sua miríade de subgêneros.

Os contos selecionados dão mostra convincente da nossa pluralidade de vozes. Das histórias mais tradicionais às mais experimentais e abertas. Do trato criativo com a linguagem à linguagem em sua funcionalidade básica. Do final apoteótico ao final sensível, sublime, anticatártico. Os maiores tropos dão sua cara: o ambiente virtual com avatares, o cenário distópico de terra arrasada, a imortalidade alcançada pela alquimia, a guerra cósmica, a viagem no tempo, os implantes neurais, o upload de consciência.

Tamanha é a amplitude, que é virtualmente impossível que todos agradem ao leitor, refém de suas próprias preferências. O nível, contudo, se mantém acima da média, com vários destaques:
Metanfetaedro, de Alliah
Menina bonita bordada de entropia, de Cirilo Lemos
Aníbal, de Andréa del Fuego
Visitante, de Carlos Orsi
Galimatar, de Fábio Fernandes
O dia em que Vesúvia descobriu o amor, de Octavio Aragão
Tempestade solar, de Roberto de Sousa Causo
Caro senhor Armagedom, de Fausto Fawcett
Los cibermonos de Locombia, de Ronaldo Bressane
As múltiplas existências de Áries, de Finisia Fideli
Quando Murgau A.M.A. Murgau e Acúmulo de Skinnot em Megamerc, de Ivan Carlos Regina
O elo perdido, de Jeronymo Monteiro
A ficcionista, de Dinah Silveira de Queiroz
Chamavam-me de monstro, de Fauto Cunha

Mas o destaque da antologia fica mesmo é com duas narrativas mais recentes:
A última árvore, de Luiz Bras
O molusco e o transatlântico, de Bráulio Tavares

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Santiago Santos é escritor e tradutor, autor de Algazarra e Na eternidade sempre é domingo.

[ Trecho da resenha publicada originalmente no portal Cidadão Cultural. ]

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Fractais tropicais

fractais tropicais

Nelson de Oliveira (organização)
Sesi-SP editora
496 páginas
Lançado em 2018

A antologia Fractais tropicais propõe ser um panorama representativo da aventura de produzir literatura de ficção científica no Brasil, a partir da seleção de seus principais contos na opinião do organizador, o também escritor Nelson de Oliveira. Conhecido como importante antologista das recentes gerações de escritores no Brasil, nos livros Geração 90 e Geração Zero Zero, assim como por seus próprios trabalhos, como os premiados O filho do crucificado e Poeira: demônios e maldições, entre outros, Oliveira também se tornou ele mesmo um autor de ficção científica, gênero que observa ser a alternativa mais favorável à crise de criatividade da literatura brasileira.

Do alto de suas 496 páginas, Fractais tropicais posta-se como pedra fundamental para um cânone da FC nacional, pois faz um levantamentos técnico, estilístico e histórico do gênero a partir das Ondas de autores vinculados ao movimento dos fãs (fandom), conceito consagrado entre os estudiosos de ficção científica. Dessa forma, o volume se divide em três partes, correspondendo a cada uma das ondas, apresentadas em ordem cronológica inversa, ou seja, iniciando pela terceira e voltando no tempo, como numa viagem ao passado, o que faz todo o sentido num livro de FC.

Dessa forma, o volume se inicia com a Terceira Onda, formada pelos autores que exercitam o gênero a partir do estabelecimento das redes sociais da internet na virada para o século 21, com textos de Cristina Lasaitis, Ana Cristina Rodrigues, Lady Sybilla, Cirilo Lemos, Alliah, Santiago Santos, Márcia Olivieri, Andréa del Fuego, Luiz Bras (persona literária do próprio organizador), Ademir Assunção, Tibor Moricz e Ronaldo Bressane.

Na Segunda Onda, também chamada de Geração dos Fanzines, aparecem os autores que produziram seus trabalhos ao longo dos anos 1980 e 2000 nas páginas das publicações independentes – período em que o gênero não tinha nenhum espaço no mercado formal –, dentre os quais Oliveira selecionou contos de Braulio Tavares, Ivanir Calado, Carlos Orsi, Lucio Manfredi, Fabio Fernandes, Ataíde Tartari, Finísia Fideli, Gerson Lodi-Ribeiro, Jorge Luiz Calife, Roberto de Sousa Causo, Ivan Carlos Regina, Octávio Aragão e Fausto Fawcett.

Finalmente chegamos na Primeira Onda, com uma seleta de autores clássicos publicados nos anos 1960 e 1970: André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, Fausto Cunha, Jeronymo Monteiro e Rubens Teixeira Scavone. Poderia continuar rumando ainda mais ao passado, recuando à era pré-fandom, que tem exemplos importantes desde o século 19, mas isso por certo enfraqueceria os objetivos mais imediatos do volume.

Percebe-se que, ainda que o organizador tenha se empenhado em dar alguma representatividade aos gêneros, sempre, e ainda hoje, predomina a presença masculina entre os autores. Embora nos demais seguimentos da literatura fantástica, como a fantasia e o terror, haja uma presença feminina mais expressiva, e a Terceira Onda realmente mostre um aumento na variedade autoral, a FC continua sendo o Clube do Bolinha da literatura fantástica, e esse será um panorama difícil de mudar, pois os protocolos da ficção científica, estabelecidos nos anos 1940 e 1950 nas revistas pulp americanas, privilegiavam o público adolescente masculino.

Outras análises podem ser obtidas, mas é conveniente deixá-las para outra oportunidade. O importante agora é destacar que, com Fractais tropicais, a ficção científica dá um passo importante em direção ao estabelecimento de um campo respeitável na literatura nacional.

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Cesar Silva é pesquisador e um dos editores do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.

[ Resenha publicada originalmente no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira. ]