Piritas siderais

Piritas siderais

Guilherme Kujawski
Francisco Alves
136 páginas
Lançado em 1994

Ficção científica e humor raramente se encontram na literatura brasileira. Não existe em nossa FC um equivalente ao revolucionário Macunaíma, de Mario de Andrade, ou aos irreverentes O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho. O romance de ficção científica que mais se assemelha a esses, na verve e na qualidade poética, é certamente o ciberbarroco Piritas siderais, livro de estreia de Guilherme Kujawski.

O ringue da discórdia, em que escritores e leitores se estapeiam sem piedade, ainda é a linguagem literária. A grande maioria prefere narrativas de enredo complexo e linguagem simples (fluente, clara, objetiva). Então, quando surge uma obra de enredo simples e linguagem complexa (ambígua, obscura, subjetiva), essa inversão de golpes encanta uns poucos e enfurece a grande maioria, aquecendo o combate.

É o perene pugilato entre o registro popular e o erudito, em que perde feio quem sempre escolhe apenas um dos lados. Nesse banquete, sinal de inteligência é ficar com os dois menus, apreciar tanto as iguarias populares quanto as eruditas, que devem ser julgadas por conjuntos diferentes de critérios. (Sobre a questão dos critérios valorativos, recomendo o artigo Duas elites, publicado no jornal Rascunho).

A trama de Piritas siderais ocorre num ponto qualquer do século 21, numa Terra de Vera Cruz marcada pelo politeísmo africano. Esse detalhe singular explica porque as metrópoles têm por patrono determinado orixá. A história transcorre mais especificamente em São Paulo de Orunmilá, com uma breve incursão a Campinas de Logun Edé. Os protagonistas café-com-leite são um negro de ascendência banta, Zé Seixas, e um branquelo de ascendência armênia, Terêncio Vale, cujo nome homenageia o canastrão Terence Hill, dos faroestes italianos da Sessão da Tarde.

Os antagonistas são uma deliciosa mestiça metade txucarramãe metade sudanesa chamada Maria Gonçalves, por sinal uma ialorixá extremamente sedutora, e um misterioso astronauta ianque, morto na explosão do ônibus espacial Challenger (ops, spoiler), chamado Berzelius Baldwin, um tipo esquisitíssimo − tão retinto quanto Zé Seixas − fissurado em ouro. O casal envolve a dupla desastrada de heróis num plano mirabolante pra trazer de volta à Terra um orixá escondido num planetinha feito do precioso metal, do sistema de Alpha Centauri.

Sustentando essa comédia de erros e acertos de humor bizarro, o leitor encontra três procedimentos discursivos, um mais excêntrico que o outro. O primeiro procedimento é a própria narração em prosa labiríntica, rica em filigranas, típica das poéticas extravagantes (barroco, romantismo, surrealismo etc.). Quem narra é “um espírito estafeta de Tobias Barreto”, um fantasma preso num banco de dados (ops, outro spoiler), que usa e abusa de metáforas e trocadilhos.

O segundo procedimento são as hipergazetas: blocos de frases absurdas, linques sem linques, nonsenses políticos e sociais que funcionam como oráculos, transmitidos por hackers e semelhantes, na luta contra o sistema oficial. Um dos passatempos prediletos de Zé Seixas é decifrar as hipergazetas: Timothy Leary e Graham Bell abrem plano de expansão da consciência, Tzar atira ersatz de quartzo na perestroika, Dodecafonia é a cacofonia da sinfonia desprovida de audiometria, Seteiras de castelo de areia desmoronam com temporal de clepsidra

O terceiro procedimento é o linguajar esdrúxulo de Berzelius Baldwin, “um portunhol com sotaque de benim-luanda, grego linear-B, dravídico e indo-europeu”. Poderia reproduzir uns trechos, mas já estourei o limite de quinhentas palavras, então prefiro preservar a surpresa, caso estejam pensando em ler o romance.

A experimentação narrativa de Piritas siderais ampliou o território da ficção científica brasileira. Seu fluxo promove curtos-circuitos principalmente na sensibilidade do leitor pouco acostumado com a transgressão das vanguardas literárias. Considerando apenas o viés formal, é fácil ver que no breve romance de Guilherme Kujawski corre o mesmo sangue azul das Galáxias, de Haroldo de Campos, e do Catatau, de Paulo Leminski.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.