A telepatia são os outros

A telepatia são os outros

Ana Rüsche
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

A ficção científica é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro, é verdade, mas também é verdade que essa não é a sua principal função. Sua principal função é puramente estética, ou seja, a mesma de qualquer outra criação literária e artística. Apesar disso, ó meus irmãos, verificar nas obras-primas da FC seus acertos futurológicos não é realmente um passatempo superdivertido? E, se prestarmos bastante atenção, não há uma só tecnologia moderna − da bomba atômica à world wide web, da engenharia genética à inteligência artificial − que não tenha sido prevista pela FC.

De tudo o que as obras de ficção científica previram, mas ainda não se realizaram − por ofender as leis da física (viagem no tempo e teletransporte) ou por falta de oportunidade (civilização alienígena e colonização de Marte) −, atualmente me interessam sobremaneira o upload mental e a telepatia. Das duas tecnologias, o upload mental foi a que mais atenção recebeu dos autores talentosos, nesses duzentos anos de FC moderna. Menos comum, a comunicação direta e à distância entre duas ou mais mentes, batizada pelo consenso de telepatia, surgiu primeiro em contos obscuros dos anos 50 − segundo o saite Technovelgy − e depois esporadicamente na obra de Philip K. Dick e em alguns mangás cyberpunks, tipo Ghost in the shell. Mas nunca na condição de protagonista. E esse foi o primeiro grande acerto do romance breve de Ana Rüsche: trazer a telepatia para o centro do palco brasuca.

O segundo grande acerto foi desvincular a origem da telepatia de qualquer avançada tecnologia eletrônica. No romance, a telepatia é uma tecnologia orgânica, de origem vegetal. É um fermentado ancestral de sabor forte e enjoativo, que as camponesas do Chile preparam secretamente há séculos. Essa escolha literária intensificou na trama a mitologia dos povos ameríndios, reivindicando pra si parte do protagonismo do conceito de brain-net, esse mais novo clichê da FC anglófona. Não é por acaso que o conflito que impulsiona a narrativa − e pega de surpresa a brasileira Irene − acontece justamente no mitológico Chile, primeiro numa esotérica comunidade rural, depois na frenética e cosmopolita Santiago.

A tecnologia eletrônica entra na segunda etapa da história, quando Irene e os novos amigos já estão treinados na arte da telepatia, mas em pequena escala. O objetivo agora é expandir a capacidade humana de comunicação mental, transformando-a, com a ajuda da internet, numa atividade planetária. Nem todos são a favor dessa disseminação global. Porém um empresário ianque roubou a fórmula do fermentado, tempos atrás, a fim de patenteá-la, tornando inevitável a corrida pela conexão mente-bebida-internet.

Visto que a ficção científica ainda é um território predominantemente masculino − e machista −, também gostei de encontrar, nessa narrativa escrita por uma mulher, personagens femininas fortes e carismáticas. Os três personagens masculinos, por outro lado, são um ladrão ianque, um amigo vingativo e um amigo boa-praça mas impotente (não no sentido sexual, mas de alguém que não consegue se conectar telepaticamente). Aliás, neste livro breve, tão importante quanto o enredo (substantivo masculino) é a linguagem (substantivo feminino) que expande a subjetividade-fêmea do texto e da telepatia. Recursos da melhor prosa modernista, emprestados da poesia primeiramente pelos grandes ficcionistas do século 20, fortalecem a narrativa, criando uma atmosfera onírica, às vezes fantasmagórica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

 

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Matando gigantes

Matando gigantes

Claudia Dugim
Patuá Editora
336 páginas
Lançado em 2019

Num estudo publicado em 2005, sobre o personagem do romance brasileiro contemporâneo, pesquisadores da UnB demostraram estatisticamente que no romance brasileiro do período analisado − entre 1990 e 2004 − os personagens são, em sua maioria, do sexo masculino, brancos, heterossexuais, de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade. De lá pra cá a situação melhorou um pouco, mas ainda é visível o desequilíbrio, a falta de diversidade social em nossa literatura contemporânea. Esse fenômeno reflete perfeitamente a histórica crise de representatividade na própria sociedade brasileira. Nossas elites patriarcais sempre reprimiram e silenciaram a multiplicidade de vozes das minorias e dos marginalizados.

A principal qualidade do romance Matando gigantes, de Claudia Dugim, é a diversidade social e cultural. Nessa narrativa ambientada no ano 2127, numa astronave que acaba de alcançar seu destino, o homem branco hetero de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade, também aparece, mas agora ele não é hegemônico. A romancista obrigou-o a dividir o palco não somente com indivíduos de outros gêneros e etnias, mas também com minúsculos humanoides com antenas, de pele azul-marinho ou verde-água, muito carismáticos e vingativos.

Há oitenta e cinco anos no espaço, o cruzador Frontier é a única nave que sobrou de um grupo de quatro astronaves colonizadoras. Em seu interior, trezentas e cinqüenta mil pessoas se acotovelam, reproduzindo as mesmas injustiças sociais e a mesma perversa luta de classes do planeta de origem, a Terra. Quando o Frontier finalmente alcança seu destino, Terra 2, os ânimos desse pessoal já estão bastante acirrados. Nesse momento tem início uma série de assassinatos estranhíssimos, que acaba jogando os cidadãos de segunda classe − latinos, índios, negros, amarelos, mulheres, comunidade LGBTQ+ etc. −, oprimidos desde sempre, contra a elite branquela que comanda a nave também desde sempre.

Os assassinatos são cometidos pelos minúsculos humanoides com antenas − autodenominados de povo das Estrelas Caminhantes −, em retaliação a um genocídio provocado involuntariamente pelos gigantes − os seres humanos − tempos atrás. Ignorantes desse fato, os cidadãos oprimidos se revoltam, pois acreditam que as mortes foram provocadas secretamente pela elite branquela, que estaria planejando uma manobra política às vésperas do desembarque. Formam-se então três núcleos antagônicos: o dos rebeldes haitianos, comandados por Mama Bá e Alfonsine, o dos privilegiados conselheiros da nave, defendido por Martina e Juan, e o dos pequeninos que vivem numa tubulação, comandados por Cherv, Uor e Gus.

Claudia Dugim planejou esse romance para o leitor jovem adulto, entre catorze e vinte e um anos. Mas é verdade que os bons livros escritos pra esse público costumam encantar também o público adulto. (Aliás, até mesmo a boa literatura infanto-juvenil beneficia-se desse fenômeno. “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”, dizia C.S. Lewis.). Em Matando gigantes, a liberdade e a fraternidade anarquistas − macunaímicas − do povo das Estrelas Caminhantes desativaram meu racionalismo, camada após camada, e me afetaram emocionalmente. Voltei a ser um jovem adulto. Voltei a sentir um pouco daquele prazer antigo, do meu primeiro contato com a literatura fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

2084: mundos cyberpunks

2084 mundos cyberpunks

Lidia Zuin (organização)
Lendari Editora
224 páginas
Lançado em 2019

As obras-primas inaugurais do cyberpunk surgiram na primeira metade dos anos 80, mas a atmosfera sombria dessa poética transgressora − muito mais sombria e transgressora na literatura do que nos quadrinhos, nos filmes, nas séries, nos games e nos clipes − continua fascinando autores e leitores do mundo todo. A constante renovação do gênero parece acompanhar uma contagem regressiva… Como se nossa sólida realidade empírica realmente estivesse se modificando na direção dessa insólita irrealidade fantástica, de altíssima tecnologia e baixíssima qualidade de vida.

Na verdade, todos os indícios garantem que nosso cenário está de fato cada vez mais parecido com esse cenário povoado de inteligências artificiais, conexões cérebro-computador, piratas de dados, apocalipses políticos e ecológicos, ciborgues e híbridos, androides e ginoides, memórias implantadas, megacorporações controlando o Estado e muito mais. E é exatamente isso o que tem mantido vivo o interesse de tantos escritores e leitores: a percepção de que a cada ano estamos um pouco mais perto de realizar na sociedade inteira o que a poética cyberpunk vem realizando há um tempão na arte e na literatura.

A coletânea organizada por Lidia Zuin traz trinta e cinco narrativas curtas ambientadas em 2084. Passando os olhos pelo sumário, o leitor logo percebe que se trata de uma seleção de jovens autores, quem sabe de um espontâneo movimento de renovação. O único veterano da FC brasuca é Roberto de Sousa Causo, um dos expoentes da Segunda Onda, que comparece com um conto intitulado A luta do Cangaceiro Jedi, sobre um pixador anarquista cheio de ginga e suas ações solitárias contra o sistema.

Também dão um show de criatividade, os autores mais jovens. Por mais que a novidade-realmente-nova seja quase impossível no esgotado território do cyberpunk, ao menos metade dos autores reunidos na coletânea surpreende com ficções muito acima da média. Meia dúzia desses contos até extrapola as referências anglófonas ao expressar temas tipicamente tropicais e brasileiros, podendo ser classificada de ficção tupinipunk, uma sugestão de Roberto de Sousa Causo.

Além do conto de Causo, esses foram os que mais me agradaram, na ordem em que aparecem no livro:

O evangelho de fósforo branco, de Yago Cury
O canto do galo gaulês, de Bruno Bianchi
A diretora-analista de mídias oníricas, de Fabio Kabral
Mil e um usos para um desfibrilador cefalorraquidiano, de Thiago Loriggio
Do nada para a escuridão, de Gabriel Ferreira
Um bom momento para abrir mão de seu plano de saúde premium, de Ricardo Celestino
O pajemancer, de Mario Bentes
A verdade em 2084, de Dante Saboia
Sinal verde, de Rodrigo Ortiz Vinholo
Imagem, de Rodrigo Ortiz Vinholo

E são os contos que mais me agradaram principalmente pela sua força literária, fundada no estranhamento do normal, na remoção meticulosa da película de familiaridade que reveste nossa sociedade. Tradição que se nutre bastante do conceito de ostranênie dos formalistas russos, de unheimlich de Freud e de epifania de Joyce.

A principal função da ficção científica não é prever o futuro, como pensa o senso comum. A ficção científica é, antes de tudo, ficção. Ela responde primeiro às leis da criação literária e artística, e sua força vem da qualidade estética de suas obras-primas. Mas também é verdade que a FC é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro.

E os autores contemporâneos − da coletânea 2084: mundos cyberpunks e de outras obras igualmente inquietantes − estão fazendo previsões assustadoras… A dúvida não é mais se esses eventos e inovações acontecerão ou não. A dúvida é quando acontecerão.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Intergalático

Intergalático

Guilherme Gerais
Avalanche Editora
176 páginas
Lançado em 2014

Os apreciadores da sétima arte ganharam mais uma fascinante obra-prima quando o genial Andrei Tarkovski levou para as telas o romance Piquenique na estrada, dos irmãos − não menos geniais − Arkadi e Boris Strugatski. Não se trata de adaptação, mas de recriação. Stalker é mais um exemplo de filme que não segue à risca o roteiro do romance de origem. As demoradas e introspectivas imagens das ruínas e da natureza, típicas da linguagem do cineasta russo, não nasceram de trechos análogos da obra literária, mas são elas que impulsionam a poesia mística do longa-metragem.

Durante minha leitura do livro Intergalático, ambicioso trabalho do fotógrafo paranaense Guilherme Gerais, senti-me um solitário stalker de Tarkovski, deambulando por uma zona misteriosa. Uma zona-experiência desabitada, mas fisicamente conectada de algum modo a outros pontos do universo. A ausência da figura humana e das cores − todas as fotos são em preto e branco − intensifica mais ainda essa solidão viajante. (Muitas páginas-imagens do livro podem ser apreciadas online em guilhermegerais.com/Intergalatico)

São paisagens áridas e semiáridas, imagens granuladas em que o traçado de vales e montanhas, a pouca vegetação e o vasto céu parecem adormecidos, à espera da próxima era geológica. São também construções em desconstrução, além de muitos artefatos e objetos abandonados, denunciando grandes ausências e pequenos esquecimentos, como se a humanidade tivesse subitamente desaparecido. Permeando tudo isso há uma série de sinais e diagramas deixados aqui e ali, símbolos astronômicos que evocam os tradicionais enredos de visitação alienígena.

Há também elementos que sugerem um jogo extraordinário, entre eles a capa-tabuleiro do livro. No blogue Entretempos, Daigo Oliva escreveu sobre esse detalhe:

O livro de Guilherme Gerais, ainda que contrarie minhas inclinações, é uma viagem fantástica. Todo em preto e branco, retrata uma jornada mística, misturada a ilustrações que remetem a jogos de tabuleiro. As imagens parecem flertar com algum tipo de bruxaria e, mais do que uma história contada com começo, meio e fim, representa um estado de espírito sombrio e estranho.

Jogo extraordinário. Viagem fantástica. Bruxaria. Criação do mundo… No blogue Hotel Berlim, Rodrigo Grota reforça essa percepção multifacetada:

Com ilustrações do artista gráfico Arthur Duarte, e projeto gráfico do próprio fotógrafo, Intergalático também parte do pressuposto de que qualquer narrativa visual oferece sempre um segredo, um desejo que não se revela por inteiro, mas está sempre presente. Dessa forma, a abertura para um imaginário espacial, repleto de tecnologias já abandonadas, reforça essa tese de que o mundo em que se vive é sempre o mundo em que se cria: estar vivo sendo algo próximo de estar em constante fabulação.

Construída sem frases, períodos e parágrafos, a fotonarrativa de Guilherme Gerais também nos lembra da força descomunal da linguagem verbal. Uma única palavra − justamente a que dá título ao livro − contamina e direciona toda a nossa interpretação. Se o título fosse outro, tenho certeza de que a narrativa também seria outra. As mesmas fotos, na mesma sequência, contariam outra história. De mistério policial, ou sobrenatural, ou de viagem… Mas duvido que seria uma história mais potente − ao mesmo tempo esotérica e cósmica − do que essa Intergalático.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Mestre das Marés

Mestre das Marés

Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
288 páginas
Lançado em 2018

Meu primeiro contato imediato de altíssimo grau com a ficção científica foi agenciado, ainda na infância, pela televisão (em preto e branco): Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Terra de gigantes… A ficção científica literária surgiu em meu radar somente na puberdade, anos depois das viciantes séries ianques. O início da leitura de contos e romances foi estimulado, nessa época, principalmente pelo cinema: Guerra nas estrelas, Contatos imediatos do terceiro grau, Galáctica: astronave de combate, Alien: o oitavo passageiro, Jornada nas estrelas: o filme

Quem acompanha de perto os dois modos de expressão, logo percebe que a diferença entre a FC audiovisual e a FC literária não é apenas estrutural (texto impresso numa página, de um lado − imagens em movimento e sonoplastia, do outro). Há uma perceptível diferença de inteligência narrativa. Estatisticamente, as séries e os filmes tendem a ser mais sensuais e pirotécnicos (atores bonitos, música vibrante, lutas coreografadas, explosões) e menos conceituais e abstratos (aprofundadas noções científicas, sutilezas filosóficas, inteligência tática, pragmatismo) do que os contos e os romances.

Nas space operas audiovisuais, por exemplo, nada me aborrece mais do que as batalhas no espaço. Quando duas frotas antagônicas se encontram, não há qualquer planejamento, não há a mínima estratégia. Os artilheiros e os pilotos parecem malucos chapados. Os caças voam bestamente atirando pra todos os lados. Em solo a situação não é melhor: as tropas parecem mais um bando de bárbaros desnorteados, gritando e disparando a torto e a direito.

Um dos elementos mais elaborados oferecidos pelo romance Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo, é justamente o que falta nas minisséries e nos filmes de ficção científica militar: estratégia. Partindo do pressuposto de que uma guerra interplanetária é um empreendimento caríssimo, que consome recursos impensáveis de uma civilização, cada passo precisa ser analisado exaustivamente. Como numa complexa e demorada partida de xadrez.

Estamos no século 25 e nossas humanas − demasiado humanas − disputas político-econômicas espalharam-se pela galáxia. Além da natural competição com as civilizações alienígenas, seis blocos humanos competem entre si pela soberania: Latinoamérica, Euro-Rússia, Ásia Centro-Oceânica, Aliança Transatlântico-Pacífico, Ecumênia Árabe e Federação Africana.

A nova missão do capitão Jonas Peregrino e de seu grupo armado − os Jaguares − é resgatar uma equipe de cientistas refugiados num planeta atingido pela potência devastadora de um buraco negro próximo. Mas os cientistas encontraram nos subterrâneos do planeta − cenário similar ao inferno do célebre épico de Dante Alighieri − um misterioso artefato tadai, capaz de anular as ondas de choque sísmicas e cinéticas, e de interagir com o buraco negro num nível quântico. A missão de resgate envolve também capturar essa tecnologia avançada.

Os tadais são uma raça beligerante cujo principal propósito parece ser o extermínio da humanidade e das outras raças tecnológicas. As máquinas de combate tadais são tudo o que os humanos e seus aliados conhecem dessa civilização oculta, avessa ao diálogo. Faltando pouco tempo pra destruição total do planeta pelo buraco negro, enquanto Peregrino e seu grupo combatem os robôs nos subterrâneos, as naves jaguares rechaçam as forças inimigas na órbita elevada.

Entre os antagonistas de Peregrino há ainda uma jornalista determinada a escrever um perfil depreciativo do capitão e seus Jaguares. A voz narrativa passa estrategicamente da terceira pessoa para a primeira, sempre que as inquietações da jornalista entram em cena.

Os acontecimentos narrados em Mestre das Marés ocorrem logo depois dos eventos apresentados no romance Glória sombria, lançado em 2013 (leia a resenha). Nos dois romances, a estratégia militar − entrecruzada com a estratégia moral, política e econômica − é o ponto alto. As operações são planejadas com cuidado e a argúcia administra cada lance no tabuleiro da batalha. Pra nossa sorte, a space opera militar de Roberto de Sousa Causo relaciona-se fortemente com os games-de-estratégia de ação futurista, vertente do audiovisual bem mais inteligente do que as séries e os filmes.

Outra estratégia bem conduzida fortalece Glória Sombria e Mestre das Marés: a estratégia científica e tecnológica. Mesmo quando apresentadas na forma de recorrentes info-dumps, a ciência e a tecnologia que impulsionam as naves através do espaço, ampliam os sistemas de comunicação, movimentam as armaduras de combate e refinam os implantes biocibernéticos − entre dezenas de outros equipamentos − são fascinantes, dá gosto fechar os olhos e ficar imaginando.

Também dá gosto ler uma space opera em que a maioria dos personagens é parda, negra ou índia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Fanfic

Fanfic

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019

Não é de hoje que o consenso vem dizendo que Braulio Tavares é um dos escritores mais criativos, prolíferos e versáteis de nossa literatura. Percebi isso logo na primeira vez em que visitei o superblogue Mundo Fantasmo, vasto território que abriga uma quantidade imensa de ensaios, artigos, contos, crônicas e resenhas surpreendentes, sobre todos os assuntos.

Esse paraibano radicado no Rio de Janeiro também faz parte do pequeno time de escritores de altíssimo nível que há três décadas vem impulsionando a ficção científica e a ficção fantástica brasileiras, com narrativas de qualidade inquestionável.

Agora, uma pequena parte da grande produção de Braulio Tavares foi reunida nesta coletânea de espantos e epifanias, batizada com um título inusitado: Fanfic.

São vinte e duas ficções (contos e minicontos) em que nossa cotidiana noção de realidade é posta em xeque, das mais variadas maneiras. Muitas vezes com um bem-vindo toque de humor e irreverência.

A cultura enciclopédica do autor promove nesta coletânea − e praticamente em toda a sua obra − um casamento virtuoso entre o pop e o erudito.

A ciência e a tecnologia mais espantosas estão a serviço da fantasia e do insólito poéticos, quase sobrenaturais, ecoando a célebre lei de Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”

Conectados à concretude abstrata de um alien, um videogame, uma droga da inteligência, uma viagem interestelar, um experimento paranormal ou um excêntrico sonho lúcido, os protagonistas desses contos e minicontos se perdem − às vezes por puro acidente − nos labirintos e nas mandalas da linguagem e da consciência.

Durante o breve tempo da leitura, essas ficções abrem e atravessam, por meio da hiperatividade biotecnológica, as delirantes portas da percepção anunciadas por William Blake e Aldous Huxley. Ou da gloriosa máquina do mundo de Camões e Drummond.

Mas o que há do outro lado das portas da percepção? De acordo com as narrativas de Braulio Tavares, há um sem-número de outras portas, cada uma mais misteriosa do que as outras, guardando um sem-número de interrogações. Cada vez que um mistério é investigado e desvendado, outros brotam em seus interstícios, multiplicando nosso espanto e nossa ignorância.

Um bom exemplo desse fenômeno fractal é a narrativa mais longa da coletânea, intitulada O molusco e o transatlântico. Um astronauta brasileiro que pesquisa a telecinese − capacidade de mover os objetos apenas com a força do pensamento − é sequestrado de uma estação espacial por aliens, que dispensam os outros humanos da equipe internacional, ficando apenas com o brasileiro.

Por mais que o astronauta colabore e tente dialogar com seus sequestradores, tudo o que ele consegue são abstrações simbólicas e reflexos distorcidos num espelho sensorial. A interface entre ele e os aliens é um rosto humano sintético, sem corpo, brilhando no escuro e falando através de uma voz digital: “Eu sou o seu Interlocutor. Você foi convocado para trabalhar para nós.”

Fanfic é uma coletânea feita de camadas e sobreposições, em que a ficção científica e a ficção fantástica extrapolam qualquer limite de gênero. Sobre o inusitado título do livro, o autor escreveu:

A palavra fanfic é uma abreviação de fan fiction, e se refere à ficção escrita por fãs de um autor ou conjunto de autores, utilizando, sem pedir autorização, elementos criados por eles. (…) Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Back in the USSR

Back in the USSR

Fábio Fernandes
Patuá Editora
224 páginas
Lançado em 2019

O sofisticado Método Frankenstein de Ressurreição®, desenvolvido pelo doutor Victor Frankenstein na Suíça, em 1794, e patenteado dez anos depois pela empresa alemã Ewigkeit, ou simplesmente a Empresa, mudou completamente o rumo da História de nossa civilização. Agora é possível ressuscitar qualquer falecido nas primeiras horas após sua morte, ou seja, antes do início da degeneração celular, preferencialmente antes do rigor mortis.

Utilizado em larga escala, o Método® beneficia praticamente todas as classes sociais. Reis, príncipes, magnatas, pop stars e também gente comum são ressuscitados cotidianamente. Só não é trazido de volta à vida as pessoas que, por razões filosóficas ou religiosas, assinam previamente um termo proibindo a ressurreição. John Lennon é uma dessas pessoas. A ressurreição nunca lhe interessou. Depois que o maluco do Mark Chapman o assassinou com cinco tiros a curta distância, em frente ao edifício Dakota, o esperado era que Lennon permanecesse pra sempre mortinho da silva. Mas Lennon ressuscitou. Ou pior, foi ressuscitado contra a sua vontade.

Nas orelhas do livro, o escritor Santiago Santos resume muito bem o contexto delirante desse thriller surrealista de Fábio Fernandes:

Aqui, os Estados Unidos não se tornaram uma grande potência depois da Segunda Guerra Mundial. Porque ela não aconteceu, e o país se dividiu em três. Como resultado, a Rússia, parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, onde os Bea­tles fizeram o seu melhor show nos anos 60, protagoniza a Guerra Fria com outra potência: a República de Weimar, formada por Alemanha, Áustria e Luxemburgo.

Não é só isso que causa bastante estranheza.

Há uma base secreta que estuda a vida alienígena, chamada Área 71, na Islândia. A Semana de Arte Moderna no Brasil aconteceu em 1925 e viu surgir o Manifesto necrofágico. Lee Harvey Oswald assassinou o presidente Truman. Ringo nunca tocou bateria nos Beatles. Cortázar escreveu O jogo de xadrez, Wells escreveu A ilha do dr. Favreau, Beckett escreveu Esperando Fausto e Bioy Casares escreveu A invenção de Frankenstein. Este último não por acaso, pois o cientista Victor Frankenstein realmente existiu.

O romance que Mary Shelley publicou é na verdade a biografia do homem mais importante da história moderna.

O famoso experimento que cria o monstro de retalhos humanos e energia elétrica é aperfeiçoado pela Ewigkeit, empresa alemã que patenteia em 1815 a Ressurreição®, ou o Método Frankenstein®. Um século mais tarde, durante a Grande Guerra, o método se populariza de vez e altera as ramificações históricas.

As pessoas podem voltar à vida. Não é à toa que Marx dedica um capítulo à empresa em seu O capital, ou que Baudrillard e Foucault se dediquem aos desdobramentos filosóficos dessa nova ciência, ou que Hitler nunca passe de um soldado raso.

Fato é que após o assassinato Lennon está vivo. E envolvido num intrincado jogo de espionagem industrial nesse mundo eletrificado de Fábio Fernandes, autor que há décadas vem estabelecendo quebra-cabeças literários irreverentes e cativantes, cravejados de referências ao universo pop.

Fábio Fernandes é um dos autores mais importantes da ficção científica brasileira e, em minha opinião, Back in the USSR é a sua narrativa mais instigante. Porque extrapola os limites do gênero, incorporando a malandragem, a metalinguagem, a antropofagia e o tropicalismo de nossas melhores vanguardas.

Nesse romance de humor insólito, muitos arquétipos antropológicos, históricos e científicos convergem vigorosamente, expressando um painel tragicômico de nossa milenar busca pela imortalidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.