Piritas siderais

Piritas siderais

Guilherme Kujawski
Francisco Alves
136 páginas
Lançado em 1994

Ficção científica e humor raramente se encontram na literatura brasileira. Não existe em nossa FC um equivalente ao revolucionário Macunaíma, de Mario de Andrade, ou aos irreverentes O coronel e o lobisomem, de José Cândido de Carvalho, e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho. O romance de ficção científica que mais se assemelha a esses, na verve e na qualidade poética, é certamente o ciberbarroco Piritas siderais, livro de estreia de Guilherme Kujawski.

O ringue da discórdia, em que escritores e leitores se estapeiam sem piedade, ainda é a linguagem literária. A grande maioria prefere narrativas de enredo complexo e linguagem simples (fluente, clara, objetiva). Então, quando surge uma obra de enredo simples e linguagem complexa (ambígua, obscura, subjetiva), essa inversão de golpes encanta uns poucos e enfurece a grande maioria, aquecendo o combate.

É o perene pugilato entre o registro popular e o erudito, em que perde feio quem sempre escolhe apenas um dos lados. Nesse banquete, sinal de inteligência é ficar com os dois menus, apreciar tanto as iguarias populares quanto as eruditas, que devem ser julgadas por conjuntos diferentes de critérios. (Sobre a questão dos critérios valorativos, recomendo o artigo Duas elites, publicado no jornal Rascunho).

A trama de Piritas siderais ocorre num ponto qualquer do século 21, numa Terra de Vera Cruz marcada pelo politeísmo africano. Esse detalhe singular explica porque as metrópoles têm por patrono determinado orixá. A história transcorre mais especificamente em São Paulo de Orunmilá, com uma breve incursão a Campinas de Logun Edé. Os protagonistas café-com-leite são um negro de ascendência banta, Zé Seixas, e um branquelo de ascendência armênia, Terêncio Vale, cujo nome homenageia o canastrão Terence Hill, dos faroestes italianos da Sessão da Tarde.

Os antagonistas são uma deliciosa mestiça metade txucarramãe metade sudanesa chamada Maria Gonçalves, por sinal uma ialorixá extremamente sedutora, e um misterioso astronauta ianque, morto na explosão do ônibus espacial Challenger (ops, spoiler), chamado Berzelius Baldwin, um tipo esquisitíssimo − tão retinto quanto Zé Seixas − fissurado em ouro. O casal envolve a dupla desastrada de heróis num plano mirabolante pra trazer de volta à Terra um orixá escondido num planetinha feito do precioso metal, do sistema de Alpha Centauri.

Sustentando essa comédia de erros e acertos de humor bizarro, o leitor encontra três procedimentos discursivos, um mais excêntrico que o outro. O primeiro procedimento é a própria narração em prosa labiríntica, rica em filigranas, típica das poéticas extravagantes (barroco, romantismo, surrealismo etc.). Quem narra é “um espírito estafeta de Tobias Barreto”, um fantasma preso num banco de dados (ops, outro spoiler), que usa e abusa de metáforas e trocadilhos.

O segundo procedimento são as hipergazetas: blocos de frases absurdas, linques sem linques, nonsenses políticos e sociais que funcionam como oráculos, transmitidos por hackers e semelhantes, na luta contra o sistema oficial. Um dos passatempos prediletos de Zé Seixas é decifrar as hipergazetas: Timothy Leary e Graham Bell abrem plano de expansão da consciência, Tzar atira ersatz de quartzo na perestroika, Dodecafonia é a cacofonia da sinfonia desprovida de audiometria, Seteiras de castelo de areia desmoronam com temporal de clepsidra

O terceiro procedimento é o linguajar esdrúxulo de Berzelius Baldwin, “um portunhol com sotaque de benim-luanda, grego linear-B, dravídico e indo-europeu”. Poderia reproduzir uns trechos, mas já estourei o limite de quinhentas palavras, então prefiro preservar a surpresa, caso estejam pensando em ler o romance.

A experimentação narrativa de Piritas siderais ampliou o território da ficção científica brasileira. Seu fluxo promove curtos-circuitos principalmente na sensibilidade do leitor pouco acostumado com a transgressão das vanguardas literárias. Considerando apenas o viés formal, é fácil ver que no breve romance de Guilherme Kujawski corre o mesmo sangue azul das Galáxias, de Haroldo de Campos, e do Catatau, de Paulo Leminski.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Será

Será

Ivan Hegenberg
Editora Ragnarok
240 páginas
Lançado em 2007

O progresso científico é como um machado nas mãos de um psicopata. Palavras de Einstein.

O primeiro romance de Ivan Hegenberg nos apresenta nada mais nada menos do que o futuro desse progresso. Qual seria ele? O mais assombrado e o mais assombroso possível, coordenado por máquinas inteligentes, suportado por homens e mulheres violentos e inseguros, às vezes esperançosos e confiantes, quase sempre desesperados ou deprimidos. O único futuro possível para o presente no qual vivemos: a continuação caótica do não menos caótico momento atual.

Dezenas de personagens, posicionados pelo autor em pontos estratégicos, vão revelando pouco a pouco a estranha estrutura social e emocional dessa civilização alucinada, dessa sociedade em certos momentos muito mais angustiante do que as mais célebres distopias da ficção científica: a de George Orwell, em 1984, a de Aldous Huxley, no Admirável mundo novo, e a de Ray Bradbury, em Fahrenheit 451. Mesmo pertencendo a outra linhagem literária, os romances A metamorfose e O castelo, de Franz Kafka, também lançam sua sombra sobre esse futuro.

Todos os fatos aqui revelados se passam no século 23. O oxigênio agora é retirado dos oceanos, a realidade virtual aboliu a distância espacial e temporal (os indivísduos podem viajar artificialmente pra qualquer lugar ou época), a propriedade privada também foi abolida, a escassez de água e a superpopulação são as piores ameaças ao equilíbrio do planeta, as pessoas de carne e osso convivem (nem sempre tranqüilamente) com as pessoas virtuais, nos laboratórios os limites do macro e do microcosmo são rompidos, as culpas e as neuroses podem ser extirpadas cirurgicamente da mente humana e agora a telepatia é a forma de comunicação mais sutil (até os sentimentos podem ser compartilhados).

Nossa espécie vive o apogeu da tecnologia e do cientificismo. Porém, ironia das ironias, essa situação é o reflexo da forte crise moral e existencial que devagar vai corrompendo as instituições e os indivíduos. Nesse sentido, apesar das possibilidades inimagináveis (a telepatia, a viagem ao centro da célula, a materialidade virtual), a sociedade futura continua estacionada espiritualmente no início do século 20. O fracasso das utopias, a fragmentação da consciência, a indústria cultural, as ideologias de direita e esquerda: nada mudou. Diante dos mesmos conflitos vividos por nossos antepassados, conflitos que levaram à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, à Guerra do Vietnã e à do Iraque, fica bem claro que o progresso industrial e tecnológico não foi acompanhado pelo fortalecimento da subjetividade humana nem pelo enfraquecimento dos impulsos mais primitivos. Continuamos primatas egoístas e insaciáveis, dominados pelas paixões.

O sexo sádico e autodestrutivo, o fanatismo religioso e o instinto de agressão e dominação continuam testando os limites do amor e da sanidade. A última esperança pra esse futuro sombrio e irracional é provavelmente o que a espécie humana vem buscando desde o início dos tempos: o verdadeiro contato com o sagrado. A procura por esse contato último reunirá e separará muitas das dezenas de personagens do romance. Eles precisam provar do sentimento do sagrado. Mesmo que esse sentimento esteja muitas vezes oculto numa cápsula de veneno.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Os melhores contos brasileiros de ficção científica

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Roberto de Sousa Causo (organização)
Editora Devir
200 páginas
Lançado em 2007

Essa é a primeira de três antologias de ficção científica brasuca organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir. A segunda, de subtítulo Fronteiras, saiu em 2009 e a terceira, reunindo narrativas mais longas (novelas), em 2011. A trilogia oferece ao leitor vinte e nove ficções, de vinte autores fundamentais.

Na apresentação do primeiro volume, a história do gênero no Brasil é dividida em três períodos. O primeiro período, de produção mais ingênua e nacionalista, vai da segunda metade do século 19 até meados do 20. Esse é o período dos pioneiros, quase todos influenciados por Verne, Doyle e Wells.

O segundo período começa em 1960, com a coleção Ficção Científica GRD, do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, e termina no final da mesma década. Esse período, de produção mais autoconsciente e cosmopolita, é chamado de A Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira.

O terceiro período, de produção mais rica e diversificada, começa na década de 80 e continua até os dias de hoje, representando a Segunda e a Terceira Onda da FC brasuca. Bastante equilibradas, as antologias de Causo trazem o melhor de cada um desses períodos.

Não sou especialista no assunto, mas a sensação que eu tenho, diante da quantidade de saites, blogues e revistas online destinados ao gênero, é que a ficção científica brasileira está muito viva na internet, porém bastante fragilizada, quase moribunda, nas livrarias.

É claro que jamais deixou de acontecer o eterno pinga-pinga de coletâneas de contos e romances de autores nacionais. Mas a freqüência com que esses livros têm aparecido é pequena e insuficiente, incapaz de projetá-los pra fora de seu círculo alternativo e marginal, motivando mais e melhores leitores.

Nesse pinga-pinga, para cada cinco ou seis pingos medíocres, sem a mínima qualidade literária, há pelo menos um muito bom, inventivo, consistente, poético. No entanto, esses poucos autores talentosos que, com o passar dos anos, formam quase uma pequena multidão, não são reconhecidos como verdadeiros autores.

Seus livros não são resenhados nas principais revistas e nos principais cadernos culturais, e eles não são convidados para participar dos eventos literários mais prestigiados, reservados apenas aos que fazem, na falta de nome melhor, a alta literatura brasileira, essa mesma literatura que é ensinada nos colégios e nas faculdades de Letras.

O prestígio que prosadores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan desfrutam entre críticos, livreiros e leitores, autor algum de FC conseguiu ou está conseguindo desfrutar. A pergunta é: por quê? O que há em nossa ficção científica que a impede de sair do gueto, de ganhar as melhores estantes nas melhores livrarias e com isso ampliar seu público?

Essa não é uma pergunta retórica. Só seria se eu soubesse a resposta. A boa ficção científica brasileira é riquíssima. Há gente não apenas produzindo contos e romances interessantes, mas também refletindo e teorizando com perspicácia. Espero que vocês me ajudem a desvendar esse mistério. Também espero que possam, quem sabe, começar a desfazer esse nó editorial, esse por quê? desconfortável, que pra mim não faz sentido algum.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Santa Clara Poltergeist

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Fausto Fawcett
Editora Eco
184 páginas
Lançado em 1991

Não é segredo: considero Santa Clara Poltergeist o romance brasileiro mais importante da década de 90. Não conheço outro mais fascinante ou original (exatamente: original, no contexto tupiniquim) que o romance de estreia de Fausto Fawcett, lançado no despontar da década. Ainda não tenho a nova edição, da Arte & Letra. Então releio regularmente a primeira, da obscura editora Eco, cheia de gralhas e sustos ortográficos e sintáticos.

O mais viciante nesse transe tecnopornô pós-sapiens do Fawcett é a fusão de enredo estapafúrdio, circense mesmo, e linguagem delirante, formando um casal em perfeito equilíbrio amoroso: o enredo excitando a linguagem, a linguagem excitando o enredo, ambos gozando juntos num vaivém sadomasoquista. Conjunção que não acontece nos discos do músico performático, não de maneira tão orgânica e intensa. Santa Clara Poltergeist é um soco certeiro na cara chata do nosso proverbial realismo-naturalismo.

Esse transe tecnopornô pós-sapiens narra as desventuras escatológicas do paulista Mateus, um eletroblack (eletricista negro), e da catarinense Verinha Blumenau, reencarnação da europeia Santa Clara Poltergeist, numa Copacabana alterada por uma “falha magnética baixa”, fenômeno eletromagnético de natureza física e metafísica.

Dizer que o negão Mateus e a loirinha Verinha − arranjo clássico dos filmes de sacanagem − são ciborgues paranormais num pesadelo tupinipunk (o ciberpunk brasileiro, segundo Roberto de Sousa Causo) é simplificar demais sua condição. Na verdade, tentar resumir os personagens excêntricos e o enredo mirabolante seria perda de tempo, porque eles escapam feito um fractal mediúnico, repetindo e se multiplicando em todas as direções visíveis e invisíveis.

Fausto não é do tipo mais comum de escritor de ficção fantástica ou científica, que primeiramente constrói um cenário reconhecível, no qual o leitor possa se instalar confortavelmente, para em seguida injetar o elemento insólito que arrastará esse leitor pra fora de sua zona de conforto. Nada é reconhecível ou confortável em Santa Clara Poltergeist. Não existe zona de conforto na jornada parapsicológica de Mateus e Verinha. Tudo é bizarro o tempo todo, em alta velocidade. Tudo é Sodoma e Gomorra.

O romance é narrado no tempo presente, meu tempo predileto, menos comum em nossa ficção que o tempo passado. É narrado em terceira pessoa por uma voz onisciente, mas descontraída, às vezes desleixada, que se desvia constantemente da linha narrativa principal. Todo o encanto do estilo único do Fausto emana desse narrador volúvel, cuja atenção explicativa escorrega de uma história a outra, depois a outra, antes de voltar à avenida principal e passar a outra história, depois a outra…

Creditado ao designer Jorge Cassol, a edição da editora Eco oferece um projeto gráfico bastante audacioso pra época em que o livro foi lançado. O fluxo de texto é pressionado por tarjas verticais e cinco dezenas de fotogravuras em meio-tom. As fotogravuras compõem uma espécie de fotonovela subjetiva expressionista. São imagens fragmentárias em baixa definição (pontos grandes, baixa densidade), em preto e branco, tiradas de catálogos, manuais e revistas vagabundas (a maioria pornô).

Essa fotonovela fragmentária não ilustra nem traduz visualmente a pujança futurista do romance. Mas a justaposição causa um efeito drástico eficiente. De uma maneira inesperada, a poética verbal e a não verbal se influenciam positivamente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Ninguém na Praia Brava

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Ademir Assunção
Patuá Editora
192 páginas
Lançado em 2016

Poeta, ficcionista e letrista, Ademir Assunção é um dos poucos autores do nosso mainstream que passeiam prazerosamente por territórios esnobados pela crítica especializada, entre eles a ficção erótica e a científica. Notei esse detalhe duas décadas atrás, ao ler sua estreia na prosa, o volume de contos A máquina peluda, lançado pela Ateliê Editorial.

As treze porra-louquices da coletânea oferecem fortes doses de libertinagem carnal e ficcional. Não são poucas as paródias e as colagens orbitando o sistema binário linguagem-metalinguagem. Referências da alta e da baixa cultura alimentam um redemoinho pós-moderno. Meus contos prediletos são justamente os de ficção científica: o sacana No futuro a gente se encontra e o nefasto Quinze minutos, posteriormente incluído por Braulio Tavares na antologia Páginas do futuro, da editora Casa da Palavra.

A ficção erótica e a científica também estão presentes no segundo romance de Ademir, Ninguém na Praia Brava, escrito em forma de diário de viagem. Nada ortodoxo, é claro. O sistema binário linguagem-metalinguagem é novamente o centro gravitacional, agora dessa narrativa movida principalmente pela potência do tropicalismo e de outras contraculturas.

O protagonista do romance, e alter ego do autor, chama-se Ninguém. Igual a muitos outros antes dele, Ninguém pede demissão do emprego árido em São Paulo, reúne livros e CDs, bebidas e um laptop e vai morar numa casa no litoral norte, em busca de liberdade e iluminação. Cansado da crônica crise financeira, ele planeja escrever um romance de sucesso que renderá sete milhões de dólares quando for filmado por Sean Penn ou Coppola, quem topar primeiro.

Se fosse mais um exemplo de autoficção protagonizada por um escritor branco, hetero, de classe média, dissertando sobre o próprio umbigo, não seria um romance de Ademir Assunção. Escritores célebres − Dante, Joyce, Gertrude Stein e Haroldo de Campos − não visitariam o herói. Não haveria personagens femininas chamadas Nada e Nunca. Jeová e Lúcifer não jogariam xadrez no pontão da Praia da Fortaleza. Talvez mais importante que tudo isso: Kurt Vonnegut e Billy Pilgrim não teriam um papel fundamental na trama.

Abduzida do cânone ianque, a dupla Kurt & Billy, muito amiga do povo alienígena de Tralfamador, contamina todo o romance com uma bem-vinda radioatividade sci-fi. Portais se abrem no tempo, mitologias ganham corpo, sonhos eróticos e delírios pagãos expandem a consciência… Sempre com humor. A sátira e a leveza marcam essa prosa avessa ao realismo-naturalismo. O texto flui com facilidade. A leitura cabe, com folga, numa tarde e numa noite. Com direito à acidez do melhor ácido. Numa das melhores cenas ocorre uma reconfiguração alucinógena da realidade, ou seja, um diálogo com O congresso futurista, romance de Stanislaw Lem, filme de Ari Folman.

Do mesmo modo que Fausto Fawcett e Ronaldo Bressane − pra ficarmos apenas na geração 90 −, Ademir também aposta na ficção não mimética, que trata da realidade sem imitar objetivamente a realidade. Não escreve prosa prosaica, não faz sociologia ou historiografia de segunda mão. Aventura-se nas dobras do passado-presente-futuro. É por esse motivo que A máquina peluda, Adorável criatura Frankenstein (seu primeiro romance, lançado pela Ateliê Editorial em 2003) e Ninguém na Praia Brava mereciam mais e melhores leitores.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Mnemomáquina

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Ronaldo Bressane
Selo Demônio Negro
340 páginas
Lançado em 2014

Sólida, líquida ou gasosa, a água não perdoa, vinga-se. Choveu tanto que São Paulo virou uma Veneza de marés fétidas sob um céu cítrico, com canais envenenados riscados por hovercrafts cheios de passageiros, além de colônias subaquáticas na avenida Berrini e uma praia inesperada onde hoje é a praça Benedito Calixto. Estamos em 2054. Psicopombos falantes infestam o mundo. Esse labirinto de lixo biológico e industrial, desenhado pelas grandes enchentes, chama-se agora Cidade-Olho. Acredite, você não vai querer morar lá.

Mnemomáquina é um romance fragmentário, em que cada um de seus quarenta e três capítulos − mais um preâmbulo e um epílogo − revela ao leitor as paranoias e amnésias de uma guerrilha obscura. Contra o tecnológico Neverland Institute, corporação de engenharia genética e outras pesquisas pós-humanas, posiciona-se a sorrateira Divisão dos Não-Lineares, organização secreta que luta para impor certa ordem no caos das Personalidades Intercambiantes.

São agentes da Divisão o aloprado Zed Stein, a multifacetada Baby Gasoline e o gorila albino Butthole Kongo, pra quem “Deus é noise, barulho preto, ruído branco, papo reto, pau a pau”. J.D. Salinger e Philip K. Dick, renascidos, também são agentes. Não são os mais excêntricos. Trabalhando juntos num apartamento do edifício Copan, há um vidente chamado Fabrizio e um tubarão-tigre hermafrodita chamado Hannah, emanação carnívora da misteriosa Mnemomáquina. Sua missão é enviar aos agentes do passado mensagens colhidas no futuro, “para, quem sabe, melhorar este presente absurdo em que vivemos”. À margem dessa comunidade de conspiradores, vivem os indigentes e os superfodidos, caçando e coletando no traiçoeiro Rio-Mar. No piso mais baixo e podre da pirâmide da escrotidão estão os abjetos Coisos, segregados na Interzona.

Alguns capítulos desse mecanismo mnemopolifônico funcionam isoladamente, como se fossem um conto. O de número 19, por exemplo, batizado Los cibermonos de Locombia, é uma obra-prima. Esse capítulo é um irreverente relatório de Zed Stein escrito em portunhol selvagem, onda transgressora − mistura de guarani, português e espanhol − impulsionada pelo poeta Douglas Diegues no final do século passado.

Esqueçam os jornais e as revistas de grande circulação. O radar da crítica oficial raramente capta as obras mais interessantes. É graças aos invisíveis que os novos temas vão se firmando na ficção brasileira. Temas contemporâneos, utópicos e distópicos, entre eles a manipulação do genoma e do cérebro, a convergência carbono-silício e a permanência da consciência, vulgarmente chamada de imortalidade. Nessa literatura de confronto, “mesmos os cegos escoam luz pelos olhos” (Butthole Kongo).

Em Mnemomáquina, o ficcionista paulistano reúne de maneira consistente os desequilíbrios sociais e políticos − opressão institucional, repressão policial, depressão coletiva − distribuídos difusamente nos contos de Céu de Lúcifer. Lançada em 2003 pela Azougue Editorial, essa coletânea hoje esquecida merecia mais e melhores leitores. Também merece mais e melhores leitores a novela gráfica futurista V.I.S.H.N.U., do trio Acher-Bressane-Cobiaco, lançada em 2012 pela Companhia das Letras.

Bressane pertence a uma tribo minúscula, porém bastante necessária ao ecossistema literário, de autores não realistas, que fazem da fantasia delirante sua pedra filosofal. Quem mais integra essa pequena comunidade? Dos ficcionistas da geração 90, formada pelos escritores que estrearam na última década do século passado, reconheço apenas dois: Fausto Fawcett e Ademir Assunção.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

O fruto maduro da civilização

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Ivan Carlos Regina
Editora GRD
84 páginas
Lançado em 1993

Para os especialistas e até mesmo para o senso comum, o humor é uma forma de expressão secundária, considerada superficial, sempre atrás da seriedade profunda do drama e da tragédia. Esse preconceito contra o riso é antigo. Raramente pensamos numa comédia quando convidados a indicar as principais obras-primas da arte e da literatura. No campo da ficção científica não é diferente. Dois dos livros mais importantes da FC brasuca, porém, são obras marcadas pelo humor. Refiro-me à coletânea de contos O fruto maduro da civilização e ao romance Piritas siderais, de Guilherme Kujawski, lançado em 1994. Por ora comentarei apenas o primeiro.

Um novo manifesto antropofágico e dezoito narrativas − umas breves, outras brevíssimas − compõem a coletânea de Ivan Carlos Regina. Desse conjunto, mais da metade é excelente, e ao menos quatro − Quando Murgau A.M.A. Murgau, O caipora caipira e Quem viver verá, além da última, que dá título ao volume − mereciam ter sido cogitadas pra célebre antologia organizada por Italo Moriconi, Os cem melhores contos brasileiros do século.

A ficção mais longa tem apenas seis páginas. A mais curta, meia página. Duas narrativas são em versos, fato raro na ficção científica daqui e de fora. Aliás, a poesia atravessa praticamente o livro todo, além de ser o assunto do penúltimo conto.

Quando Murgau A.M.A. Murgau é um comovente libelo contra a homofobia, mesmo falando de uma espécie animal que habita Plutão. Mais adiante, dialogando com o Macunaíma, de Mário de Andrade, O caipora caipira convoca um conhecido personagem de nossa demonologia para uma irreverente cruzada ecológica. Esse conto curto defende na prática a teoria do Manifesto antropofágico da ficção científica brasileira que abre o volume.

Quem viver verá narra a não menos tragicômica odisseia de um luso-brasileiro que passa pelo processo de criopreservação a fim de descobrir “quão velho pode ser um homem?” E a ficção mais séria da coletânea é justamente O fruto maduro da civilização, feita de fragmentos apocalípticos que nos alertam para um fenômeno perverso, de degradação física e moral, que pode estar ocorrendo neste exato momento. Bela simetria: este conto é o reflexo escuro do manifesto inicial. Mas até mesmo essas páginas tão severas oferecem algo de bizarro, tangenciando o humor negro, muito apreciado pelos surrealistas de todas as nacionalidades.

Nas melhores ficções de Ivan, em prosa ou verso, o humor é do tipo filosófico, configurando uma resposta rápida e violenta à estupidez fisiológica de nossa sociedade de consumo. Seus alvos prediletos são a indústria cultural, as agências de propaganda, as megacorporações, a burocracia institucional, o moralismo religioso e os tabus sexuais. No panelão do canibal modernista, Ivan tempera certos clichês da pulp fiction anglófona − abdução, criogenia etc. − com a pimenta e o azeite dos trópicos.

Além da inclinação para o humor filosófico e o pitoresco brasileiro, outra coincidência aproxima a biografia de Ivan Carlos Regina e a de Guilherme Kujawski: o silêncio literário. Cada autor publicou um importante livro de ficção científica, nos anos 90, e só. Apesar da recepção bastante positiva, até agora novos livros de FC ainda não foram lançados por eles. Infelizmente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.