Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

Corrosão

Corrosão

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
292 páginas
Lançado em 2018

Foi uma surpresa bastante prazerosa, este romance de FC hard do teólogo e ensaísta carioca Ricardo Labuto Gondim, também autor da coletânea de ficções e reflexões Deus no labirinto (2016) e do thriller policial B (2013). Talvez sua obra esteticamente mais ambiciosa, Corrosão é uma poderosa narrativa de confronto e descoberta, feita de camadas que vão se sobrepondo devagar, com vigorosa elegância.

O cargueiro Nikola Tesla, com duzentos e oitenta metros de casco, é o triunfo da engenharia espacial do século 22. Conduzido por uma sofisticada inteligência artificial, dezenas de robôs e apenas seis tripulantes humanos altamente treinados, sua primeira missão é viajar até as imediações de Plutão, interceptar um grande asteroide e extrair dele um óxido precioso inexistente na Terra, com propriedades supercondutoras.

Mas nas proximidades de Júpiter surge uma anomalia astronômica que chama a atenção primeiro do sistema de bordo do Nikola Tesla, depois de sua tripulação: uma vasta nuvem vermelha de hidrogênio, anelar, contendo uma nuvem verde de metano e enxofre, elíptica, por sua vez contendo nada mais nada menos que o lendário Titanic, duzentos e quarenta anos depois de seu naufrágio.

Obviamente a grande questão que impulsiona o enredo é: de que maneira o maior transatlântico de seu tempo se deslocou do fundo do oceano para as proximidades de Júpiter? Essa situação insólita mobiliza o controle da missão, na Terra, e os tripulantes do Nikola Tesla. O raríssimo óxido do asteroide não é mais prioridade.

Nas mãos de um ficcionista mediano, esse mistério seria, sozinho, o centro do sistema narrativo. Mas nas mãos de Ricardo Labuto Gondim ele é, digamos, uma das estrelas de um sistema estelar binário. Interagindo com o mistério do Titanic existe outra intensa força de atração literária: o drama humano. Na maior parte do romance, acompanhamos o atrito às vezes epidérmico, às vezes profundo, que aquece a coreografia da equipe do cargueiro espacial.

Os personagens − suas idiossincrasias, habilidades e inquietações − são muito bem desenhados pela mão segura do romancista, mas dois se destacam: o capitão Mravinsky e a inteligência artificial A.N.N.A. Fã confesso de Moby Dick e Vinte mil léguas submarinas, Ricardo Labuto Gondim, além de exercitar uma escrita minuciosa, rica em detalhes técnicos e psicológicos, muito apreciada pelos melhores escritores realistas do século 19, se inspirou em dois grandes capitães da literatura universal, Ahab e Nemo, para criar seu Mravinsky, um oficial enérgico e culto, apreciador de literatura e música eruditas.

A serviço da Corporação que investiu pesado em sua construção, o sistema neuromórfico A.N.N.A. e a espaçonave são uma coisa só, corpo e mente entrelaçados produzindo um magnífico veículo autoconsciente. O comportamento lógico da IA, nos momentos em que o comportamento biológico da tripulação humana é tingido por traços emocionais, produz um contraste muito bem-vindo. Onipresente, A.N.N.A. interage com os nanorrobôs na corrente sanguínea dos tripulantes, com o compartimento criogênico, com os grandes reatores e propulsores da nave etc.

Enquanto isso, lá fora… A carcaça do Titanic. Tão fantasmagórica quanto a baleia branca do romance de Melville. No decorrer da história, outros fenômenos até mais surpreendes farão o narrador onisciente, estarrecido, concluir que “a irracionalidade dos eventos implicava na ideia de que o absurdo era uma das muitas possibilidades do universo”.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Subgêneros da ficção científica

Bandeira do Brasil

Afrofuturista: narrativa que combina ficção científica e cosmologia africana.
Títulos brasileiros:
O caçador cibernético da rua 13, romance de Fábio Kabral.

Cyberpunk: ficção que mescla ciência e tecnologia avançadas (cibernética, informática, neuropróteses, realidade virtual) a certo grau de desordem social. (Ver também retrofuturismo.)
Títulos brasileiros:
Além do invisível, conto de Cristina Lasaitis.
Correndo nas sombras, miniconto de Ana Cristina Rodrigues.
Distrito federal, rapsódia de Luiz Bras.
Favelost, romance de Fausto Fawcett.
Guerra justa, romance de Carlos Orsi.
Metanfetaedro, conto de Alliah.
Os dias da peste, romance de Fabio Fernandes.
REQU13M, trilogia de contos de Lidia Zuin.
Santa Clara Poltergeist, romance de Fausto Fawcett.
Silicone XXI, romance de Alfredo Sirkis.
Sob a sua árvore, conto de Rodrigo Rahmati.

Distopia: ramo da FC ambientado em um Estado futuro totalitário, em que há um opressivo controle da sociedade.
Títulos brasileiros:
Amorquia, romance de André Carneiro.
Adaptação do funcionário Ruam, romance de Mauro Chaves.
Não verás país nenhum, romance de Ignácio de Loyola Brandão.
Piscina livre, romance de André Carneiro.
Réquiem: sonhos proibidos, romance de Petê Rissatti.

Esotérica: narrativa que aproxima o conhecimento mensurável (ciência) do conhecimento paranormal (ocultismo).
Títulos brasileiros:

Exobiológica: ramo da FC que trata das excêntricas formas de vida alienígena.
Títulos brasileiros:
Quando Murgau A.M.A. Murgau, conto de Ivan Carlos Regina.

FC hard: subgênero caracterizado por seu interesse nas leis da biologia, da química e da física, no detalhe tecnológico e na absoluta precisão científica.
Títulos brasileiros:
Padrões de contato, romance de Jorge Luiz Calife.

FC soft (também chamada de new wave): subgênero cujas tramas tendem a privilegiar os dramas humanos, os relacionamentos e sentimentos, deixando em segundo plano os detalhes do instrumental tecnológico e das leis físicas.
Títulos brasileiros:
Acúmulo de Skinnot em Megamerc, conto de Ivan Carlos Regina.
Mestre-de-armas, conto de Braulio Tavares.
Não chore, novela de Luiz Bras.
O caipora caipira, conto de Ivan Carlos Regina.
O esplendor, romance de Alexey Dodsworth.
O fruto maduro da civilização, conto de Ivan Carlos Regina.
O Templo do Amor, conto de Ana Cristina Rodrigues.
Octopusgarden, romance de Gerson Lodi-Ribeiro.
Zitz e a rede etérea, romance de Giovanna Picillo.

Feminista: narrativa que veicula a crítica feminista contra as situações patriarcais.
Títulos brasileiros:
Deixe as estrelas falarem, romance de Lady Sybylla.

História alternativa: ficção cuja trama transcorre num mundo em que a História possui um ponto de divergência em relação à História como nós a conhecemos.
Títulos brasileiros:
A ética da traição, conto de Gerson Lodi-Ribeiro.
A segunda pátria, romance de Miguel Sanches Neto.
E de extermínio, romance de Cirilo S. Lemos.
Método prático da guerrilha, romance de Marcelo Ferroni.
O alferes de ferro, conto de Fabio Fernandes.
Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo.
Tudo de novo no front, conto de Fabio Fernandes.

Imortalidade: narrativa em que a biotecnologia investiga certos meios de neutralizar o processo de envelhecimento, com o objetivo de aumentar indefinidamente a expectativa de vida.
Títulos brasileiros:
Paraiso líquido, conto de Luiz Bras.

Império galáctico: narrativa sobre um império disseminado por toda uma galáxia, conectando centenas de planetas e milhares de civilizações.
Títulos brasileiros:

Inteligência artificial: subgênero que trata de softwares, robôs e androides tão ou mais inteligentes do que os seres humanos que os criaram.
Títulos brasileiros:

Invasão alienígena: subgênero no qual uma sociedade extraterrestre tecnologicamente superior invade a Terra com o intuito de tomar o lugar da espécie humana ou de escravizá-la ou, em alguns casos, para usar os humanos como comida.
Títulos brasileiros:
(História com desenho e diálogo), conto de Brontops Baruq.

Mundo perdido: narrativa sobre a descoberta de uma civilização perdida (Eldorado, Shangri-la etc.) ou de um território anacrônico, geralmente pré-histórico, num local totalmente isolado da civilização moderna.
A Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls.
A República 3000 ou A filha do inca, de Menotti Del Picchia.
A cidade perdida, de Jeronymo Monteiro.

New weird: ficção que mistura os três gêneros da literatura especulativa: ficção científica, horror e fantasia, não raro absorvendo elementos também da ficção policial.
Títulos brasileiros:
Mnemomáquina, romance de Ronaldo Bressane.
O alienado, romance de Cirilo S. Lemos.
Será, romance de Ivan Hegenberg.

Pós-apocalipse: narrativa ambientada em um mundo quase sem ninguém, devastado por uma guerra ou uma pandemia.
Títulos brasileiros:
A espingarda, conto de André Carneiro.
O último artilheiro, conto de Levy Menezes.
Sozinho no deserto extremo, romance de Luiz Bras.

Primeiro contato: narrativa sobre o primeiro encontro entre humanos e alienígenas.
Títulos brasileiros:
A nuvem, conto de Ricardo Teixeira.
As águas-vivas não sabem de si, romance de Aline Valek.
Dezoito de Escorpião, romance de Alexey Dodsworth.

Realidade paralela: subgênero que trata das outras realidades que coexistem e se comunicam com a nossa, podendo ser acessadas por meio de portais físicos ou mentais.
Títulos brasileiros:

Retrofuturismo: ramo da FC que reúne os diversos punks retrôs derivados do cyberpunk e do steampunk: stonepunk, clockpunk, decopunk, dieselpunk, atompunk e solarpunk (quando as histórias são ambientadas num passado alternativo).
Títulos brasileiros:
Era uma vez um mundo, conto de Antonio Luiz M. C. Costa.
Venezia em chamas, conto de Ana Cristina Rodrigues.

Satírica: ficção que se apropria dos principais elementos dos outros subgêneros, exagerando-os ou distorcendo-os.
Títulos brasileiros:
Piritas siderais, romance de Guilherme Kujawski.
O senhor Info e dona Ninfo, conto de Ivan Carlos Regina.

Space opera: ramo da FC que enfatiza a aventura heroica, a ação interplanetária, os cenários exóticos e o enfrentamento épico.
Títulos brasileiros:
Da astúcia dos amigos improváveis, conto de Santiago Santos.
Glória sombria, romance de Roberto de Sousa Causo.
Obliterati, conto de Fabio Fernandes.
Pendão da esperança, conto de Flávio Medeiros Jr.
Viva muito, morra jovem, conto de Lidia Zuin.

Steampunk: ficção ambientada numa Era Vitoriana (meados do século 19) alternativa, tecnologicamente avançada, em que máquinas complexas são movidas não pela eletricidade, mas pelo vapor. (Ver também retrofuturismo.)
Títulos brasileiros:
A lição de anatomia do temível Dr. Louison, romance de Enéias Tavares.
Uma vida possível atrás das barricadas, conto de Jacques Barcia.

Ufológica: narrativa sobre o fenômeno dos discos voadores, normalmente avistados em condições imprecisas, podendo ou não ocorrer uma abdução alienígena.
Títulos brasileiros:
Estação Terra, romance de Odimer F. Nogueira.
Dunkerque universal, romance de João Ribas da Costa.
O 31º peregrino, romance de Rubens Teixeira Scavone.
O homem que viu o disco voador, romance de Rubens Teixeira Scavone.

Universo paralelo: subgênero sobre outro(s) universo(s), separado(s) de nosso próprio universo, mas com pontos de contato, em certos casos formando um multiverso.
Títulos brasileiros:

Viagem no tempo: ficção baseada no conceito de mover-se para trás e para frente na linha do tempo, em um modo análogo à mobilidade pelo espaço.
Títulos brasileiros:
Eu matei Paolo Rossi, conto de Octavio Aragão.
Paradoxo de Narciso, conto de Ivanir Calado.

Vida extraterrestre: narrativa sobre a viagem a outros planetas, e sobre os seres vivos, inteligentes ou não, que vivem lá.
Títulos brasileiros:
Exercícios de silêncio, conto de Finisia Fideli.

[ Luiz Bras + colaboradores ]

Zitz e a rede etérea

Zitz e a rede etérea

Giovanna Picillo
Editora Scortecci
224 páginas
Lançado em 2016

Giovanna Picillo estreia na literatura e na ficção futurista com um romance conduzido por nossas principais inquietações existenciais, sempre incômodas, distribuídas no difuso cruzamento geométrico em que a ciência, a filosofia e a religião se encontram por um minuto, sem se repelir. Nessa narrativa genuinamente otimista, a autora projeta em seus personagens os medos e as incertezas que a civilização humana vem tentando resolver há milênios, sem sucesso.

Vitimados por uma catástrofe ecológica, num futuro indeterminado os países, as cidades, as florestas e os rios foram reduzidos a escombros. O que sobrou da civilização agora vive em dois núcleos isolados: a Tecnourbe, uma metrópole-fortaleza altamente tecnológica, protegida por uma bolha eletromagnética, e a distante Newrbe, instalada nos subterrâneos de um antigo centro urbano, pra se proteger do clima perigoso que castiga a superfície.

O protagonista do romance, Zitz, é um eficiente funcionário da Tecnourbe comandada pelo pragmático e racionalista Conselho diretor. Conectado ao complexo sistema de comunicação da metrópole-fortaleza, o pesquisador dedica todo o seu tempo à procura de soluções técnicas e científicas, auxiliado apenas por sua assistente pessoal, uma I.A. chamada Diuly. Tudo segue o extenuante protocolo imposto pelo Conselho e administrado pelo Sistema, até que a rotina de trabalho é perturbada por sabotagens e mensagens misteriosas, que empurram Zitz na direção da Newrbe.

E se o pensamento tiver dupla natureza, semelhante à luz: ora sequência de ondas, ora feixe de partículas? A principal pesquisa de Zitz, no momento, é a teletemática, uma forma total de comunicação, que permitiria às pessoas trocar não somente dados da linguagem (verbal, matemática, musical etc.), mas experiências emocionais profundas, em duplas e até em grupos. Esse também é o eixo filosófico do romance: a comunicação mental, ou telepatia, tão desejava por místicos, artistas, alquimistas e cientistas − estes também! − de todas as épocas.

A busca de Zitz está alinhadíssima com a do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, que escreveu no livro Muito além do nosso eu:

Para mim não é nada surreal imaginar que futuras proles humanas poderão adquirir habilidade, tecnologia e sabedoria ética necessárias para estabelecer um meio através do qual bilhões de seres humanos consensualmente estabelecerão contatos temporários com outros membros da espécie, unicamente através do pensamento. Como será participar desse colosso de consciência coletiva, ou o que ele será capaz de realizar e sentir, ninguém em nosso tempo presente pode conceber ou descrever.

Na verdade, os escritores de FC de nosso tempo estão se atrevendo a conceber e descrever, pois a rede etérea investigada por Zitz, antes dos atentados e das mensagens misteriosas, era exatamente esse colosso de consciência coletiva de que fala Miguel Nicolelis com tanto entusiasmo.

O romance é narrado basicamente por Zitz, mas o foco narrativo também acolhe a voz de outros personagens. Outra característica que me fascinou, nessa obra de estreia, foi a atmosfera humanista, o espírito francamente otimista do enredo e dos personagens. Em todos os níveis: político, social e pessoal. Confesso que aprecio mais as narrativas sombrias, sobre Estados opressores e indivíduos dominados pelo sistema. Talvez por isso mesmo me fez tão bem ler uma história em que a força dos seres humanos e dos seres sintéticos está na empatia e na generosidade.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Erox ex machina

Eros ex machina

Luiz Bras (organização)
Editora @link
152 páginas
Lançado em 2018

No passado, a ficção científica era o espaço para a humanidade sonhar com uma utopia diante dos enormes saltos tecnológicos desde a revolução industrial ou temer um futuro criado por uma humanidade que pela primeira vez na história tem a capacidade de aniquilar a sua própria existência.

A maioria das previsões não se concretizou, pois não eram profecias, mas sim espelhos de uma sociedade pós-guerra assombrada por governos totalitários e bombas nucleares. Então qual é o futuro imaginado pela geração que cresceu nesse distante século 21 sonhado nos clássicos do passado?

Se depender da coletânea Eros ex machina, lançada em fevereiro, os nossos medos e esperanças não estão mais nos foguetes, mas sim debaixo do lençol. E eles podem ser ainda mais assustadores do que uma bomba nuclear.

São dezoito contos escritos pelos participantes do ateliê Escrevendo o Futuro, cada qual uma reflexão sobre como será o sexo na era dos robôs. O tema ganha na maioria das histórias um ar quase freudiano, com o sexo refletindo as fobias de uma geração que enfrenta todos os dias o dilema da desumanização diante da tecnologia e pautas como o feminismo e a ampliação dos direitos LGBT, além do crescimento da resistência diante dessas bandeiras.

Um exemplo desse lado negro do sexo está em VeriDIANA, de Alex Xavier, a história de uma criança que descobre da pior forma possível o que é sexo, pelo menos na cabeça do seu pai. Já em Ela é tão bonita desligada, de Nathalie Lourenço, é discutido o quanto dos outros ainda existe em nós após o fim de um relacionamento (seja ele carnal ou de silicone).

Nem todas as histórias são sobre relações físicas. Delete, de Nathan Elias-Elias, por exemplo, revela um mundo em que os aplicativos mostram mais interesse e compreensão no outro do que o distante e preconceituoso mundo real. Há também espaço para tons mais leves, como Vaaaiii, Coriiinthians!, em que Sonia Nabarrete narra de forma cômica a homofobia no futebol, usando como personagem um robô que acaba apaixonado pelo esporte em um momento inesperado.

Diante dessa distopia psicológica, cabe a Luiz Bras, orientador do ateliê, encerrar a coletânea com o conto Sob a cúpula. Nele, a ficção científica ganha um tom mítico e místico, sobre uma comunidade que usa a tecnologia para transformar o sexo não em um ato de hierarquização, mas sim de união social. Ali, não importa o seu gênero ou qualquer outra orientação sexual usada para segregar a sociedade, há apenas uma comunhão em uníssono de uma tribo em busca do prazer não individual, mas coletivo.

É possível interpretar essa conclusão da coletânea como uma última lição de Luiz aos seus alunos. Assim como não entramos no novo século sob as chamas das bombas nucleares temidas no passado, é possível que os nossos netos não vivam em um mundo em que o sexo seja apenas o reflexo dos impulsos mais sombrios da humanidade. Imaginar esse futuro não é apenas esperá-lo, mas sim tentar realizá-lo.

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Evandro Furoni é jornalista e colabora com a revista Galileu e outras publicações culturais.

[ Resenha publicada originalmente na revista Galileu. ]

Páginas do futuro

Páginas do futuro

Seleção e apresentação de Braulio Tavares
Ilustrações de Romero Cavalcanti
Editora Casa da Palavra
152 páginas
Lançado em 2011

Qual a cara da ficção científica brasileira? Quem são seus principais escritores no território nacional? Em que pé ela se encontra hoje?

Sem a pretensão de dar uma resposta definitiva para estas perguntas, ou mesmo constituir um cânone literário nacional, o escritor e especialista no tema, Braulio Tavares, no ano de 2011 reuniu alguns dos mais representativos contos produzidos por estas bandas.

Desde Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), passando pelo modernista Oswald Beresford (?-1924), e chegando até o camaleônico Luiz Bras (1966), são quase cento e cinquenta anos de produção literária, que permitem reconhecermos uma trajetória muito bem consolidada para o gênero no país.

Ao longo de todos os contos, percebemos que estilos e temas variam entre os vários escritores brasileiros. Mesmo assim, segundo o organizador da coletânea, duas tendências parecem ter se configurado de forma definitiva: a que trata de um espaço selvagem e a ficção de caráter mais utópico e satírico.

Através da leitura fica fácil percebermos isso ao notarmos que as duas vertentes citadas nem sempre estiveram tão distantes uma da outra. A união entre elas ocorreu com certa frequência, fosse de maneira esporádica, fosse se aproximando de forma quase simbiótica. Um casamento feliz, que traria momentos ricos para os textos, como podemos notar, por exemplo, no conto de Raquel de Queiroz.

Logo, fica claro que o riso tropical, em um futuro pós-humano, se apresenta como uma das marcas que balizam a ficção científica nacional, contrastando com um caráter mais duro quando comparada com outras correntes, como aquelas desenvolvidas com maestria no mundo anglo-saxão.

Ora, se entre ingleses e americanos o pessimismo e uma certa visão apocalíptica delineiam enredos, por outro lado um certo olhar crítico-mordaz sobre nosso futuro-presente parece estar sempre ali na ficção científica à brasileira. Uma suposição para isso: talvez a herança lusitana (sem a melancolia que caracteriza os portugueses) de criticar tudo e todos. Outra: o retrato das contínuas instabilidades políticas e dos surtos econômicos pelos quais o Brasil de tempos em tempos atravessa. Em suma, uma questão ainda em aberto.

De qualquer forma, os doze escritores reunidos permitem constatarmos que na ficção científica brasileira existe uma busca constante pela leveza nos assuntos tratados. Os conteúdos insólitos e distópicos são apresentados em todos os contos com uma prosa fluída, que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

Ao mesmo tempo, na obra, notamos uma paisagem ficcional por demais masculina, onde conflitos e temas do mundo do homem são o contexto, o pano de fundo das histórias. A presença de apenas duas autoras mulheres (Rachel de Queiroz e Finisia Fideli) parece mais como uma tentativa de escapar destes enfoques. Interessante notar que, no texto de Finisia, aspectos da religião oriental contemporânea aparecem como fio condutor de sua trama, o que a aproxima dos leitores atuais. Talvez esteja aí um dos desafios para uma futura nova coletânea. Encontrar vozes femininas, mas também da comunidade LGBT, com contextos religiosos variados, que ampliem o escopo multiétnico e multivocal da ficção científica.

Por fim, como uma sugestão para o leitor, proponho uma pequena brincadeira. Em todo início de conto, Braulio Tavares apresenta uma pequena biografia do escritor, que permite situar a obra no tempo e no espaço. Sugiro que não leia e parta direto para o conto. Tente imaginar, ao final da leitura, se você consegue situar cronologicamente o período de produção do conto. Depois, monte uma tabela com sua tentativa e compare com o sumário. Alguns serão facilmente datados, outros nem tanto. Se tiver tempo, mande o resultado por e-mail, para vermos como você se saiu.

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Tobias Vilhena é arqueólogo e ficcionista, e um dos autores da coletânea Eros ex machina, sobre robôs sexuais.