Anjos, mutantes e dragões

Anjos Mutantes e Dragões

Ivanir Calado
Editora Devir
296 páginas
Lançado em 2010

Essa antologia com as melhores ficções curtas de Ivanir Calado reúne quinze narrativas de ficção científica e fantasia escritas no final do século passado, anteriormente espalhadas por diversas coletâneas temáticas, incluindo uma coleção de livros sobre os sete pecados capitais.

Apesar de juntar contos produzidos em momentos diferentes, escritos sob encomenda para projetos contrastantes, o volume é regular e equilibrado, fato incomum nesse tipo de reunião.

Manipulando com competência certos elementos de psicologia, ecologia, mitologia, sociologia, política e História, a escrita de Ivanir Calado se destaca pela elegância e pela riqueza de pormenores. E o enredo de seus contos, ao buscar a clássica unidade de efeito proposta por Edgar Allan Poe, sempre surpreende.

Sylvio Gonçalves observa, na apresentação de Anjos, mutantes e dragões, que o contista explora muito bem uma capacidade exclusiva da ficção científica e da fantasia: denunciar as mazelas de nossa sociedade por meio da criação de realidades diferentes da nossa apenas na aparência.

Todos os contos me agradaram bastante, especialmente esses cinco:

Paradoxo de narciso, o próprio título já está insinuando, é uma narrativa que explora um dos possíveis paradoxos criados por uma viagem no tempo. A premissa não é nova na ficção científica, mas rendeu aqui uma variação interessante. O protagonista volta doze anos no passado, visita a si mesmo mais jovem e o encontro produz uma insólita dinâmica afetiva, algo que o viajante não havia previsto. (Esse conto também foi selecionado para a antologia Fractais tropicais: o melhor da ficção científica brasileira, da Sesi-SP Editora.)

Operação Lobo narra uma ação secreta pra libertar de uma fortaleza-prisão um químico romeno que decidiu passar para o lado dos adversários do regime do ditador Ceausescu. Um detalhe preocupante da estratégia de resgate é que não há plano de fuga. Uma vez encontrado o professor, ficará a cargo dele pensar num modo de escaparem da fortaleza-prisão. O aspecto científico desse conto − o uso de um gás paralisante − recebeu um bem-vindo tratamento cômico.

Kilumbo é uma ficção curta que transfere para o espaço um fragmento da história da escravidão no Brasil. Não há navios negreiros, mas naves igualmente insalubres que transportam os escravos kiluns até os asteroides-minas, onde trabalham até morrer. McZomb, líder de seu grupo, decide comandar uma revolta que, se bem-sucedida, libertará os kiluns, permitindo que fujam para um planeta distante.

Eleanor Rigby, inspirada numa de minhas canções favoritas dos Beatles, reapresenta o tema clássico da prostituta solitária e deprimida. A fim de escapar da rotina de objeto sexual, a protagonista compra numa loja um rosto novo, aumentando sua coleção. Durante um passeio, ela conhece um homem e se apaixonam. Nesse futuro indeterminado, “o casamento está de novo na moda”. A questão é se a opressora Companhia pra qual Eleanor trabalha aceitará pacificamente sua deserção…

O altar dos nossos corações é uma das narrativas mais longas da coletânea. Parece que a proverbial promiscuidade entre Estado corrupto e crime organizado, que conhecemos tão bem, ainda se prolongará por muito tempo. O governador do Rio de Janeiro é sequestrado por uma facção criminosa, isso põe em movimento a roda de trapaças e traições. Entre as assustadoras novidades dessa época está a ponte Rio-Niterói, que virou uma favelona fortificada, vigiada pelos urubus: garotos armados pilotando ultraleve.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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Aprende com tua nêmese

Yin Yang

Vira e mexe, voltamos a falar do embate antigo entre as duas tradições literárias antagônicas: a poética clássica e a poética barroca, entendendo a palavra poética como programa de arte, modo de fazer. (Quem sugeriu que existem apenas duas tradições antagônicas, que vão se desdobrando ao longo dos séculos, foi o teórico Ernst Robert Curtius, em seu célebre Literatura europeia e Idade Média latina.)

Os contos e os romances pensados segundo a orientação clássica (fiquemos apenas na prosa de ficção) são os de linguagem clara e objetiva, enquanto os contos e romances pensados segundo a orientação barroca são os de linguagem obscura e subjetiva. O movimento modernista brasileiro, por exemplo, representou o triunfo da poética barroca, ao valorizar a literatura fragmentária, retorcida, transtornada, propositadamente estranha e hermética.

Passado o tsunami modernista, certo equilíbrio se estabeleceu em nosso cenário cultural (a inevitável paz armada) e hoje convivemos com os mais diferentes exemplos das duas poéticas antagônicas. Há até autores que, em sua produção literária, oscilam de uma para a outra com a maior segurança.

Nessa contenda de tradições, a ficção de gênero (policial, sobrenatural, erótica, científica etc.) nunca escondeu sua preferência.

A praia que costumo habitar, a ficção científica, está tão fortemente ligada à poética clássica, que ainda é difícil pra maioria das pessoas sequer imaginar uma ficção científica de natureza barroca. Essa dificuldade foi parcialmente anulada pelo movimento New Wave, que durante algum tempo promoveu a comunhão (moderada) entre forma modernista e conteúdo futurístico. Mas a escola New Wave jamais se tornou hegemônica. Tampouco a escola New Weird, nossa contemporânea. O que testemunhamos ainda hoje, principalmente nos contos e nos romances de maior sucesso comercial (best-sellers), é o triunfo da linguagem clara e objetiva.

Distante da ficção de gênero, também chamada pejorativamente de literatura de entretenimento, está a praia da ficção erudita, também chamada elogiosamente de alta literatura. Nesse território administrado por especialistas diplomados, a poética modernista sempre foi apreciada e divulgada. Graças à universidade o modernismo se tornou, no Brasil, a corrente dominante, o principal modelo de nossa literatura.

Os especialistas da ficção erudita (de modo geral, pesquisadores acadêmicos e jornalistas com pós-graduação) gabam-se de pensar em alto nível uma literatura de alto nível, para poucos. Já a galera da literatura de gênero gaba-se de produzir e fazer circular em larga escala uma literatura acessível e prazerosa. De um lado o sucesso estético, do outro o sucesso comercial.

A poética da abstração e da fragmentação sintática (às vezes elitista demais), tão apreciada pela comunidade erudita, e a poética do fotorrealismo e da clareza sintática (às vezes popular demais), tão apreciada pela comunidade de gênero, estão sempre discordando. São duas elites que levam muito a sério a divergência. Cada lado só enxerga as fraquezas do adversário, evitando assim qualquer tipo de convergência criativa.

Nesse confronto, perdem os dois lados.

Tanto a ficção erudita quanto a ficção de gênero já esgotaram há muito tempo seus recursos naturais. O problema da ficção erudita é a falta de conteúdos novos e o problema da ficção científica é a pouca diversidade formal. A ficção erudita só voltará a pensar em alto nível conceitual quando começar a expressar as questões do pós-humano, por exemplo. E a ficção científica só se tornará um gênero também de alto nível estético quando reconhecer na poética barroca uma aliada, não uma adversária.

Certa vez eu ponderei, num convite ao mainstream, que a corrente principal de nossa literatura ganharia muito se absorvesse e reelaborasse certos temas próprios da ficção científica contemporânea. Hoje vejo que esse movimento não pode ser unilateral. A ficção científica também tem muito que aprender, principalmente no campo da forma literária, com a grande ficção erudita do século 20, ligada às vanguardas artísticas.

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Luiz Bras

O velocista

O velocista

Walter Cavalcanti Costa
Cepe Editora
216 páginas
Lançado em 2018

Esse não é um romance de ficção científica.

− Então, Luiz, o que ele está fazendo no blogue FCB?

Esse é um romance de ficção científica.

− Não estou entendendo. Tá parecendo mais o gato de Schrödinger, vivo e morto ao mesmo tempo…

Exatamente: esse é e não é um romance de FC. Vou tentar explicar. Sabe os desenhos ambíguos que iludem nossos olhos? O famoso pato que é coelho que é pato que é coelho? Então… O premiado romance O velocista, de Walter Cavalcanti Costa, é do mesmo tipo.

Dialogando com a melhor tradição de nosso modernismo futurista − estou pensando nos clássicos fragmentários de Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1933) −, a narrativa vencedora do Quinto Prêmio Pernambuco de Literatura é composta de trezentos e dez estilhaços, divididos em nove seções.

Os estilhaços são, aparentemente, uma coleção desordenada de memórias e reflexões de Jô Tadeu Tábua, o protagonista da história. E de fato há uma história, um enredo, nessa coleção esquizofrênica de breves diálogos, rápidas descrições e intermitentes digressões. Um leitor paciente e perspicaz, afinado com as vanguardas artísticas e seus jogos poéticos, consegue montar o quebra-cabeça que a cabeça de Jô Tadeu irradia sem descanso.

Pra facilitar um pouco o trabalho, há um estilhaço que esclarece quem é quem no vaivém de personagens que brincam de esconde-esconde ao longo do romance.

96

Explicativo

Eu sou Jô Tadeu Tábua, sou astronauta. Sou filho da estilista Carolina Vásquez e do professor de ciências contábeis João Tábua. Sou casado com Beyita Samana, a governadora do Estado de Pernambuco, no Nordeste da República Federativa do Brasil, e sou irmão do artista plástico Von O’Val, que é casado com a bibliotecária Valbuena Sales, que fala sete línguas ocidentais. Sales trabalhou com meu pai, João Tábua, no local onde hoje é a biblioteca que recebeu o nome dele.
Tenho um filho chamado João Tadeu. Uma filha que está para nascer. Nasceu.
Estou a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

Duas considerações me ocorrem, após a leitura de O velocista.

Trata-se, é óbvio, de uma obra pertencente à tradição modernista da prosa obscura, subjetiva, caótica e às vezes hermética, produzida por rebeldes − Joyce, Beckett, Raul Brandão, Clarice, Leminski, Hilda Hilst e outros − hoje canonizados e estudados no ensino médio e nas faculdades de Letras. Essa tradição da obra-aberta (Umberto Eco) ainda fortalece a corrente dominante da literatura e dos estudos literários.

Confesso, porém, que se não fosse por um detalhe, o romance de Walter Cavalcanti Costa não teria me interessado tanto. Afinal, justamente por pertencer à corrente dominante da literatura e dos estudos literários, a fragmentação romanesca já deixou de ser novidade há muito tempo. O detalhe que me prendeu a atenção foi a profissão de Jô Tadeu: astronauta. E o fato de ele estar a trinta e cinco dias, seis horas e vinte e sete minutos no espaço.

É a primeira vez que um astronauta entra em cena, no campo da literatura erudita brasileira. Porque, de Joyce aos dias atuais, os romances fragmentários do mainstream costumam expressar a consciência caótica do corriqueiro cidadão comum: gente simples da periferia, operários e comerciantes, escritores em crise, artistas sem talento, donas de casa entediadas, jovens sem amor nem futuro, delírios da classe média etc.

As questões práticas da rotina de um astronauta brasuca aparecem muito pouco em O velocista. Nessa narrativa predominam o cotidiano doméstico e afetivo do protagonista, próprio da tradição mainstream. Mas a brevíssima menção à figura do astronauta me permitiu extrapolar a alucinante fragmentação discursiva. Durante a leitura, consegui enxergar Jô Tadeu atravessando um portal fractal, sua nave em alta velocidade capturada por uma distorção do espaçotempo, o passado-presente-futuro do protagonista pipocando no ontem-hoje-amanhã, sua consciência elaborando e reelaborando encontros e desencontros de uma causalidade alternativa.

Resumindo: esse não é um romance de ficção científica, mas é do tipo que pode ser lido também como um romance de ficção científica.

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Reflexão relacionada: Aprende com tua nêmese

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Paraíso líquido

Paraiso liquido

Luiz Bras
Terracota Editora
304 páginas
Lançado em 2010

Em tempos como estes, em que a política nos enoja, as pessoas nos decepcionam, a realidade começa a ficar insuportável e a vontade é de sumir do mapa, costumo recorrer à literatura que, afinal, sempre nos salva. Em momentos assim, procuro ler coisas que me tirem do eixo e me joguem muito além no tempo, ainda que esse futuro possa soar triste, cruel e melancólico.

Foi com esse estado de espírito que busquei na estante o Paraíso líquido, contemplado pelo ProAC 2010 e lançado nesse mesmo ano − meu exemplar com um autógrafo carinhoso de Luiz Bras. Embora a maior parte dos treze contos, na época, já tivesse sido impressa em coletâneas variadas, foi um imenso prazer lê-las, agrupadas, nesta obra de grande importância na carreira de Bras. E o que é melhor: editadas de forma que o leitor sente-se caminhando no tempo que gradualmente vai se tornando aterrador.

A edição se abre com Primeiro contato, texto primoroso e pungente – o meu preferido – sobre uma brincadeira entre crianças que, aos poucos e dosadamente, revela preconceito e crueldade. E segue nessa linha de alguém brincando com o destino dos outros em Memórias. Por sua vez, Nuvens de cães-cavalos nos estapeia com uma existência que pode estar na duração de um último cigarro, um show de forma e estrutura textual.

Provocador como sempre em suas antevisões distópicas, Luiz Bras fala de crianças e brinquedos assassinos em Daimons, e segue com Déjà vu, que, como ele próprio explica na orelha, pode ser lido de trás para a frente ou vice-versa, já que trata de uma máquina do tempo. São Paulo, 31 de julho de 2013 é literatura epistolar da maior qualidade em forma de um vaticínio que debocha de tudo, da política à religião e a personagens de desenhos animados – que bem poderia ser uma homenagem a Ray Bradburry. Em Nostalgia, o autor faz um alerta bastante sinistro: “Para o espírito do homem, o paraíso não pode ser parcelado.”

A obra se encerra com o conto que dá nome à coletânea, num cenário mais radical “onde não há mais Brasil, nem Ocidente nem o planeta Terra. Há apenas a paisagem, um espaço estranho e delicado, habitado por seres maravilhosos e assombrados por uma entidade chamada Nuvem”, nos dizeres de Rebecca O’Brien, da The Ohio State University, talvez mais um personagem criado por Bras, ele mesmo detentor de pelo menos cinco identidades.

A literatura futurista brasileira, mesmo que muito lentamente, está ganhando novos autores e adeptos, basta ver a recente multiplicação de lançamento de antologias com os melhores de todos os tempos. Luiz Bras faz parte desse movimento, e, mais do que produzir obras importantes na cena literária, ele tem sido mestre e fonte de inspiração para toda uma nova leva de autores preocupados em ficcionar o futuro.

Por sua iniciativa, por três anos (2008-2011) convidou quarenta e quatro escritores para produzirem textos, organizou e lançou o Projeto Portal, uma revista de ficção científica editada no sistema de cooperativa, destinada não ao grande público, mas em suas palavras “a esse pequeno grupo de aficionados mais refinados”. Foram seis números dessa publicação cujos títulos homenageavam os grandes mestres da ficção científica (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit), num total de 2.450 exemplares.

E em 2012, organizou e lançou como antologia o volume Todos os portais: realidades expandidas (também pela Terracota Editora), uma seleção de vinte e um contos dos seis números do Projeto Portal, com trabalhos de Roberto Sousa Causo, Fábio Fernandes, Ataíde Tartari, Braulio Tavares, Laura Fuentes, Brontops Baruq, Claudio Brites, Ana Cristina Rodrigues, Petê Rissatti, Ricardo Delfin entre outros.

O triste é saber que esses dois livros estão esgotados, idem os números dos Portais, podendo apenas ser encontrados com muita sorte em sebos. Quem sabe alguma editora esperta se interesse por relançá-los, uma vez que fazem parte da história da ficção científica brasileira contemporânea.

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Nanete Neves é jornalista e escritora, autora de De âmbar e trigo, entre outras obras.

Cela 108

Cela 108

André Cáceres
Editora Multifoco
224 páginas
Lançado em 2015

Comecei a coordenar oficinas de criação literária em meados de 2000. Nesses dezoito anos, perdi a conta de quantas já coordenei, em instituições públicas e particulares do país todo. Um fenômeno que me impressionou bastante foi o aumento do número de jovens escritores talentosos. Nos primeiros grupos, não havia nenhum. Depois foi surgindo um aqui, outro ali… Mais recentemente, poetas e ficcionistas talentosos com menos de vinte anos de idade são cada vez mais comuns. Não há grupo que não revele um ou dois. Tenho meio século de existência e costumo brincar que escritores talentosos com menos de vinte anos deveriam ser proibidos por lei.

André Cáceres é um desses escritores. Nascido em 1995, o rapaz lançou seu primeiro livro em 2015, a distopia Cela 108, e recentemente publicou, com a jornalista Bruna Meneguetti, o belíssimo livro-reportagem Corações de asfalto (Patuá Editora, 2018), com histórias de pessoas comuns, colhidas nas ruas da capital paulista.

O romance Cela 108 é articulado à maneira de um jogo de esconde-esconde. Essa característica o aproxima das narrativas clássicas de espionagem e das distopias canônicas: Nós, de Ievguêni Zamiátin, e 1984, de George Orwell. O protagonista da história de André Cáceres chama-se Dante, e a referência ao poeta-viajante que visitou o inferno, o purgatório e o paraíso não é casual. No breve prólogo, encontramos o velho e alquebrado Dante trancafiado numa cela imunda, prestes a cometer suicídio. Estamos em 1983. No primeiro capítulo recuamos no tempo, estamos agora em 1961, e encontramos o protagonista e outro conspirador, Arthur, preparando a queda do atual ditador da Pátria (o nome do país jamais é revelado).

Por meio de flashbacks, ficamos sabendo de detalhes do contexto social e político. O autoritarismo do governo alcança todas as instituições, até mesmo a mais antiga de nossa espécie, a família: “Após o nascimento, todos os bebês eram separados dos pais na maternidade e ficavam sob a guarda do Estado. O conceito de família foi completamente eliminado da Pátria.” Muito jovem, Dante se rebela contra as normas vigentes e se junta às forças rebeldes que combatem o governo opressor. Mais tarde, torna-se um agente infiltrado, um funcionário exemplar trabalhando no alto escalão, próximo ao Presidente.

Os reflexos metalinguísticos, enraizados em A divina comédia, adensam-se com a entrada em cena de duas personagens de nomes parecidos: Beatrice e Beatriz. A primeira  pertence ao passado do protagonista e à rebelião de 1925, a segunda acaba de entrar em sua vida, às vésperas da revolução de 1984. A partir daqui não posso dar mais detalhes do enredo, pra não cometer imperdoáveis spoilers. (Não tenho nada contra spoilers, vivo dizendo que Diadorim é uma mulher e Darth Vader é o pai de Luke Skywalker, mas prefiro respeitar quem não gosta.)

Cela 108 é um romance intenso e verdadeiro escrito por uma sensibilidade intensa e verdadeira. É certamente uma obra de juventude, que oferece qualidades e também defeitos, como é próprio das obras literárias produzidas até mesmo por jovens talentosos. Mas posso garantir que Cela 108 oferece muito mais qualidades que defeitos. A maior delas é o profundo sentido político que o livro comunica. A divina comédia pode estar na superfície da trama, mas O príncipe, de Maquiavel, estrutura filosoficamente a realidade ardilosa vivida por todos: opressores, oprimidos e revolucionários. Isso já é um forte sinal de uma inequívoca maturidade.

Fico só imaginando − e aguardando − os livros que esse rapaz lançará aos trinta, aos quarenta anos…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

Corrosão

Corrosão

Ricardo Labuto Gondim
Editora Caligari
292 páginas
Lançado em 2018

Foi uma surpresa bastante prazerosa, este romance de FC hard do teólogo e ensaísta carioca Ricardo Labuto Gondim, também autor da coletânea de ficções e reflexões Deus no labirinto (2016) e do thriller policial B (2013). Talvez sua obra esteticamente mais ambiciosa, Corrosão é uma poderosa narrativa de confronto e descoberta, feita de camadas que vão se sobrepondo devagar, com vigorosa elegância.

O cargueiro Nikola Tesla, com duzentos e oitenta metros de casco, é o triunfo da engenharia espacial do século 22. Conduzido por uma sofisticada inteligência artificial, dezenas de robôs e apenas seis tripulantes humanos altamente treinados, sua primeira missão é viajar até as imediações de Plutão, interceptar um grande asteroide e extrair dele um óxido precioso inexistente na Terra, com propriedades supercondutoras.

Mas nas proximidades de Júpiter surge uma anomalia astronômica que chama a atenção primeiro do sistema de bordo do Nikola Tesla, depois de sua tripulação: uma vasta nuvem vermelha de hidrogênio, anelar, contendo uma nuvem verde de metano e enxofre, elíptica, por sua vez contendo nada mais nada menos que o lendário Titanic, duzentos e quarenta anos depois de seu naufrágio.

Obviamente a grande questão que impulsiona o enredo é: de que maneira o maior transatlântico de seu tempo se deslocou do fundo do oceano para as proximidades de Júpiter? Essa situação insólita mobiliza o controle da missão, na Terra, e os tripulantes do Nikola Tesla. O raríssimo óxido do asteroide não é mais prioridade.

Nas mãos de um ficcionista mediano, esse mistério seria, sozinho, o centro do sistema narrativo. Mas nas mãos de Ricardo Labuto Gondim ele é, digamos, uma das estrelas de um sistema estelar binário. Interagindo com o mistério do Titanic existe outra intensa força de atração literária: o drama humano. Na maior parte do romance, acompanhamos o atrito às vezes epidérmico, às vezes profundo, que aquece a coreografia da equipe do cargueiro espacial.

Os personagens − suas idiossincrasias, habilidades e inquietações − são muito bem desenhados pela mão segura do romancista, mas dois se destacam: o capitão Mravinsky e a inteligência artificial A.N.N.A. Fã confesso de Moby Dick e Vinte mil léguas submarinas, Ricardo Labuto Gondim, além de exercitar uma escrita minuciosa, rica em detalhes técnicos e psicológicos, muito apreciada pelos melhores escritores realistas do século 19, se inspirou em dois grandes capitães da literatura universal, Ahab e Nemo, para criar seu Mravinsky, um oficial enérgico e culto, apreciador de literatura e música eruditas.

A serviço da Corporação que investiu pesado em sua construção, o sistema neuromórfico A.N.N.A. e a espaçonave são uma coisa só, corpo e mente entrelaçados produzindo um magnífico veículo autoconsciente. O comportamento lógico da IA, nos momentos em que o comportamento biológico da tripulação humana é tingido por traços emocionais, produz um contraste muito bem-vindo. Onipresente, A.N.N.A. interage com os nanorrobôs na corrente sanguínea dos tripulantes, com o compartimento criogênico, com os grandes reatores e propulsores da nave etc.

Enquanto isso, lá fora… A carcaça do Titanic. Tão fantasmagórica quanto a baleia branca do romance de Melville. No decorrer da história, outros fenômenos até mais surpreendes farão o narrador onisciente, estarrecido, concluir que “a irracionalidade dos eventos implicava na ideia de que o absurdo era uma das muitas possibilidades do universo”.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.