MáquinaMacunaíma

Máquina Macunaíma

Luiz Bras
Edição do autor
224 páginas
Lançado em 2013

Do que a gente fala quando fala de máscaras sociais, superglobalização, fanatismo religioso, engenharia genética, ciborgues, implantes neurológicos, aquecimento global, buracos negros, clonagem, exoesqueletos e tantos outros termos científicos “modernos”?

Essa é a pergunta apresentada ao leitor logo que entra em contato com a coletânea MáquinaMacunaíma, de Luiz Bras, um livro composto por doze histórias curtas que prendem do início ao fim numa série de reflexões extremamente atuais.

A primeira coisa que se deve falar a respeito de MáquinaMacunaíma é: o livro é uma verdadeira obra-prima, recheado de questionamentos implícitos, atirando para todo lado, fazendo pensar. Poucos autores na literatura fantástica nacional e, ouso dizer, no mundo, provocam tanto quanto Luiz Bras. Seu texto vai do humor à agonia, da tristeza à empolgação, da euforia à decepção, com uma fluidez que encanta e surpreende constantemente.

Bras é um admirador das ciências em geral. Já demonstrou isso em diversas ocasiões, e sua obra evidencia isso. Como mostra o primeiro parágrafo desse texto, seus contos falam de temas atuais (e reais), projetos e ideias que podem ou não estar saindo do papel, sendo constantemente apresentados em revistas de divulgação e artigos científicos. Mas não se deixe enganar, a grande virtude do autor é humanizar a ciência, trazendo-a para perto da sociedade contemporânea.

É isso que vemos em Virtuais, o conto que abre a coletânea, ou Onde vivem os monstros. Este, uma história emocionante que brinca com o poder das massas, das redes sociais e da tecnologia, enquanto aquele parece ter escapado diretamente de uma temporada de Além da imaginação ou Black mirror, deixando o leitor com aquela expressão de “EITA!!!” no final.

A leitura de MáquinaMacunaíma muitas vezes parece uma peleja: ao passo em que o leitor vira as páginas, o autor vai arremessando seus questionamentos e seu texto habilmente construído, jogando com as palavras, passando por diversos tipos de literatura fantástica. A crítica social com toques de cyberpunk de Distrito federal parece ter sido escrita nos dias de hoje, misturando nossa realidade a um futuro ainda mais sombrio. A fábula new weird de Heidegger não voltará jamais impressiona pelo texto criativo e ambíguo. A investigação policial de Impostor? deixa dúvidas literalmente até a última linha, o surpreendente diálogo de Mecanismos precários diverte e ensina (é quase uma oficina de escrita!), a fantasia de Os olhos do gato diverte e assusta enquanto mostra que a verdade sempre tem dois lados.

O livro conta com outros momentos marcantes. Humana, demasiado humana é uma espécie de fantasia com toques de ficção científica que talvez faça uma ponte tênue com Primeiro de Abril: Corpus Christi, uma história marcante, absurdamente bem construída, que mistura terrorismo, tecnologia, realidade virtual e inteligências artificiais.

Cobra Norato, a cidadezinha do Mato Grosso do Sul que presenteou o Brasil com o talento de Luiz Bras, merece uma menção especial. Sua simplicidade cheia de contrastes, assim como a avenida Oroboro, sua única via pública, brinca com o imaginário do leitor, fazendo da cidade uma espécie de Sítio do Pica-pau Amarelo urbano.

A leitura de MáquinaMacunaíma inquieta, incomoda, cutuca feridas e faz pensar, ao mesmo tempo em que maravilha e assombra. Assim como fez com seu primeiro livro de contos, Paraíso líquido, Luiz Bras encanta, mostrando que está em um nível muito acima do que normalmente se vê na literatura fantástica brasileira.

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Daniel Borba é escritor de ficção científica e criador do blogue Além das Estrelas.

Paraíso líquido

Paraiso liquido

Luiz Bras
Terracota Editora
304 páginas
Lançado em 2010

Lentes da transcendência literária permitem ler a realidade, sentir o pulso e o impulso regulando as relações engendradas com outras pessoas no espaçotempo, interno e externo, nosso e delas, amarrados pela procura de sentido e do contra-sentido que a liga pensamento-sentimento possibilitam forjar.

A orelha do livro segreda não se tratar de uma coletânea normal. Em Luiz Bras nunca é! Não só o nonsense bem-humorado e bem-colocado, mas sua prosa fluente e incisiva dá vitalidade aos treze contos que já percorreram uma década e têm fôlego de sobra para as próximas, com um pé nas costas.

Conto inicial, Primeiro contato: ávido e ingênuo desejo de um menino. No dia seguinte em que o homem andou na lua, seria seu presente de aniversário ver um extraterrestre capturado?

No meio da coletânea, Déjà-vu: um ataque quase suicida visa desvendar, ao som de Albinoni e Ravel, o controle do tempo no topo de um zigurate. Experimente, a estrutura deste texto permite a leitura também de trás para frente!

O último conto, Paraíso Líquido, resvala em questões colocadas em Ubick, como a transposição da consciência, e em Stalker, a força da formulação de nossos desejos. Mas a solução de Bras é inusitada. Adentrando um território novo, o autor criou uma linguagem divertida e cativante, vatipate!

A Paisagem! Lugar da materialização dos personagens Gasoso, Sólido e Líquido. De maneira livre, serão eles as últimas fases da formação de nosso planeta? Pois parece proporcional o tempo deles na Paisagem com o da jovem impertinente, quase sem-noção, chamada Vida. Tudo é tão familiar, mas nada é o que parece ser.

Entre personagens deliciosos, nomes comuns rotacionam numa espécie de contra-sentido, num movimento em nossa mente em conformidade com as direções do texto, inseridas no mistério ameaçador que paira no Lado de Cá e no Lado de Lá.

Os contos logicamente são desiguais, há unidade e não-uniformidade, características sempre bem-vindas num livro. Dos três estados da matéria, deduzi: 1. difuso e expansivo, 2. duro e impactante, 3. fluido e envolvente. Com as lentes da transcendência literária, cada leitor enxergará à sua maneira, lembrando que elas não são universais. Bom que não sejam!

Estado 1

Nuvem de cães-cavalos: qualquer implante pode ser confiável? São indagações de um idoso frente a uma jovem que o atrai irresistivelmente.

Nostalgia: Vitória viu a realidade revelada em dois corpos ocupando a mesma matéria de que são feitos os sonhos. Uma intrigante reconstrução de uma hiper-realidade.

São Paulo, 31 de julho de 2013: ao receber uma carta sua do futuro, confiaria em si mesmo? E quais são as chances de se confiar no Papa, na Madonna ou na ONU e não no Superman ou no Pernalonga?

Estado 2

Memórias: reconhecemos o mundo e os outros pela memória, como você a controla? Tensão imersa em camadas.

Daimons: até que ponto interessa a um brinquedo manipulador e a sua turma, se crianças são anjinhos ou são pestinhas.

Aço contra osso: dura perseguição em intrincadas equações visuais contra o tempo leva um agente da lei ao limite, frente a um fugitivo astuto e debochado.

Estado 3

Singularidade nua: telepatas oníricos trigêmeos enfrentam uma singularidade nua, mas o que acontece diante da banal crueldade humana?

Cruzada: comovente contato de um bando de crianças na Terra Santa, na atmosfera caótica e sangrenta das cruzadas. A poética explosão interna do ser é maravilhosa.

Futuro presente: Na lógica probabilística do TOC, uma vidente do marketing político altera o seu destino e o da humanidade.

Protagonistas e figurantes: Vanessa, ponto inicial da trama da rede infectada por um vírus, trançada com a teia da realidade, reúne vários personagens num paradoxo.

Paraíso Líquido: leia e relaxe, as lentes baixam automaticamente. Pensando bem, seriam lentes? Talvez, igual a mim, você exploda por dentro ao ler este conto, este livro.

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Paulo Lai Werneck é escritor e integrante do coletivo KriptoKaipora.

Hiperhelix

Hiperhelix

Michel Peres
Patuá Editora
192 páginas
Lançado em 2020

Seres e certezas em transformação. Essa tem sido a premissa da melhor literatura contemporânea. Enquanto os conservadores tentam definir e congelar a noção de humano − esquecendo que a força evolutiva que anima nosso corpo e nossa mente sempre foi a mudança, jamais a inércia −, o pós-humano surge no horizonte, modificando nosso código genético e desfazendo as cansadas fronteiras que até ontem separavam os reinos animal, vegetal e mineral.

Em sintonia com os mais recentes avanços da ciência e da tecnologia, os oito contos de Michel Peres reunidos em seu livro de estreia apresentam um mundo assombroso, de metástases antropomórficas. Atualmente, o que eu espero de um conto é que ele me arraste para uma realidade incomum, o mais distante possível da realidade vulgar e enfadonha em que vivemos. Reitero: quanto mais distante, melhor.

O conto Nilsinho Pause − meu predileto − foi o que conseguiu me levar mais rapidamente à irrealidade mais porra-louca. As performances alopradas do protagonista e a reação mais aloprada ainda dos consumidores de arte denunciam, em linguagem radioativa, os cacoetes abjetos da banda podre da alta cultura.

Uma ficção vale pra mim também pela qualidade das associações que ela é capaz de produzir, e os delírios de Nilsinho Pause evocaram-me nada menos que o incontornável ensaio O grotesco, de Wolfgang Kayser, e a magnífica novela gráfica de Enki Bilal, Tetralogia monstro.

Os outros contos não vão tão longe no território do insólito, mas não decepcionam. A linguagem menos espiralada, mais referencial, cumpre bem a função de garantir que as surpresas do enredo ocupem o espaço merecido. Um bom exemplo da eficácia desse procedimento é o conto Girassol negro, sobre um viajante do tempo que aterrissa na vizinhança de Van Gogh em busca de uma raríssima pintura. Novamente, a arte coordenando a irrealidade.

No conto Preto digital é a música que ampara os anseios de uma jovem engenheira de som e de uma estrela pop em decadência. As metástases antropomórficas − comecei falando delas, lembra? − manifestam-se nos contos Droneboy (as sanguinárias fofuras), Intermitências (o menino-deus da Ciméria) e Os filhos dos homens (os gimos escravizados). As extravagâncias biológicas não param aí. Há também os tecidos sensíveis de Memento mori com fernet, cultivados em biorreatores, e o código genético capaz de promover a longevidade pós-humana, em O eva mitocondrial, uma paródia de ficção policial hard-boiled, que oferece de bônus um chimpanzé espertalhão.

Michel Peres é hábil na manipulação alquímica do registro coloquial (gírias e sotaques) e das referências da cultura geek (quadrinhos e games). Também é hábil na condução dos diálogos sinuosos, às vezes deliciosamente manhosos, no melhor estilo Ernest Hemingway e Elmore Leonard (mais evocações…).

Tudo o que eu li de Michel está entre as duas capas de Hiperhelix. Uma surpresa agradável foi perceber que esse autor em início de carreira tem talento pra escrever tanto literatura-artesanato quanto literatura-arte. A primeira, mais abundante no cenário editorial, atinge um grande número de leitores. A segunda, mais experimental, por isso mais rara, amplia o alcance estético da ficção científica, legitimando nas altas esferas um gênero que ainda sofre forte preconceito por parte de nossa intelligentsia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Amália atrás de Amália

Amália atrás de Amália

Marco Aqueiva
Patuá Editora
88 páginas
Lançado em 2019

Novela é um tipo de narrativa longa que, ao contrário da epopeia e do romance, não segue uma firme linha única. Uma novela contém vários personagens e enredos que nem sempre se cruzam, girando em torno de um personagem e um enredo principais. Um capítulo não precisa obrigatoriamente se apoiar nos capítulos anteriores ou numa rígida sequência cronológica, há casos extremos em que o leitor é convidado a alterar a ordem dos capítulos. Podemos dizer que as novelas mais genuínas são uma narrativa-fractal: uma estrutura não euclidiana, cujo tronco se ramifica em diferentes direções, gerando magníficos e hipnotizantes galhos ficcionais, mas sem perder a identidade com uma espécie de modelo original.

Amália atrás de Amália pertence a essa família de narrativas. Imagine uma história que se desenrolasse numa firme linha única, respeitando a causalidade de nossa cotidiana noção de tempo e espaço. A maior parte das histórias de ficção científica é assim. Agora imagine que no centro desse fluxo discursivo convencional havia um dispositivo explosivo que subitamente detonou, lançando fragmentos em todas as direções. A distopia de Marco Aqueiva é essa nuvem superaquecida de informação que exige do leitor outra postura perceptiva, se ele quiser apreciar uma história que é na verdade uma densa experiência poética.

Que distopia seria mais distópica do que a entropia de um Estado totalitário caótico que transformasse em metódica loucura não apenas a sociedade narrada, mas também a própria estrutura narrativa? É o que nos oferece a stultifera navis chamada Amália atrás de Amália: um caos sensorial e cognitivo, sob o qual conseguimos divisar matizes do cosmo político e social tão desejado, porém ainda prisioneiro das forças da dissolução.

O elemento ficcional mais forte é a densa atmosfera subjetiva, cheia de miragens variáveis, no interior da qual a noção clássica de tempo e espaço desaparece logo na primeira página. Sem a menor cerimônia, a narrativa vai e volta na cronologia das personagens e dos fatos. Quem é Amália Ponsa? Quem é Anon de Rodes? Quem é Lady Magna? Quem é Emanuel Santos? Quem é Olavo, Alaor e Valmor?

Realidade virtual, conexão cérebro-computador, drogas cognitivas, metamorfoses de filme B, índios songamongas, gafanhomens e quatatis tubaroides, constructos corporais, polícia kármica, memórias e sonhos implantados, abdução alienígena, metalinguagem… Tudo se mistura na mente da protagonista e também na do leitor, explicitando em nossa sólida dimensão humana o insólito − e subatômico − princípio da incerteza de Werner Heisenberg. Que é análogo ao princípio da incerteza epistemológica de que toda consciência padece, não importando seu grau de lucidez.

Mas não se desespere, intrigado leitor. No terço final desse breve labirinto cognitivo, atraídos pela força de gravidade ficcional vários fragmentos voltam a se conectar, proporcionando respostas − talvez provisórias, é certo, mas enfim: respostas − às questões mais importantes.

Amália atrás de Amália pertence à família da literatura-arte, cujas obras criam as próprias regras, por isso o estranhamento. Se você está mais acostumado com a família da literatura-artesanato, cujas obras seguem as regras de uma tradição − por isso a familiaridade −, tenho quase certeza de que não apreciará essa novela-labirinto. A menos que você esteja disposto a sair um pouco da zona de conforto. (É sempre importante lembrar que, na cultura literária, as duas famílias são igualmente legítimas e necessárias. São campos de força que se completam. Obras-primas, obras medianas e obras medíocres existem em ambas.)

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Blues for Mr. Name

Por que ler ficção científica brasileira? Que argumento você usaria pra convencer alguém a comprar um livro de FCB em vez de um livro de FC ianque ou britânica, ou até chinesa? Situação bastante comum: fulano visita a livraria e encontra nove títulos estrangeiros e um brasileiro. Que razão maluca levaria o gajo a comprar o livro brasuca?

Uma versão análoga dessa pergunta é: por que ler literatura brasileira contemporânea? Outra: por que ler literatura brasileira? Eu mesmo conheço dúzias de leitores que só leem autores estrangeiros; uns só leem os clássicos, outros até leem os dois: clássicos e contemporâneos, mas apenas estrangeiros.

Em 1959, naquela célebre passagem do prefácio da Formação da literatura brasileira, Antonio Candido respondeu muito bem a pergunta “por que ler literatura brasileira?”. Porque é a única capaz de nos expressar e nos definir. Somente na literatura brasileira encontramos as muitas faces do Brasil. Analogamente, somente na literatura brasileira contemporânea encontramos as muitas faces do Brasil contemporâneo. Esse raciocínio também vale pra ficção científica brasuca clássica e contemporânea.

(Quis o fluxo de consciência que essa questão mais ampla surgisse agora, neste minuto, pouco antes do início justamente da mini-resenha de um romance brasileiro-estrangeiro, coisa rara entre nós. De qualquer maneira, a diretriz primeira deste blogue − textos com quinhentas palavras, um pouco mais, um pouco menos − não será ignorada. As palavras destes quatro parágrafos não devem ser somadas às da mini-resenha abaixo.)

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Blues for Mr. Name

Reinaldo Santos Neves
Patuá Editora
420 páginas
Lançado em 2018

Nos últimos vinte anos, em três ocasiões diferentes eu escutei, de escritores que admiro, elogios à obra de Reinaldo Santos Neves. Porém, enredado nos quiproquós da vida cotidiana, demorei pra conhecer alguma coisa dele. Então, este ano ganhei de presente seu romance mais recente, o futurista Blues for Mr. Name.

As primeiras páginas da narrativa me incomodaram bastante. Ao ficar sabendo que a protagonista era ianque, se chamava Katherine Whishaw e a trama se passava inteira nos Estados Unidos, confesso que brochei. Minha fase xenófila ficou pra trás há muito tempo, agora estou muito mais interessado em nossas infinitas e problemáticas brasilidades. Encostei o romance por uma semana. Mas algo me chamou de volta e li mais algumas páginas. Ao ficar sabendo que a mitologia cristã sustentava o enredo − que parodia momentos do Ciclo Arturiano, mais especificamente da Demanda do Graal −, tornei a ficar aborrecido e a encostar o livro. Se fosse a mitologia iorubá ou a ianomâmi, o papo seria outro.

Mas algo me chamou de volta mais uma vez. Quando dei por mim, já havia lido metade da obra, sem pressa, num ritmo homeopático. Gostando e desgostando. Desgostando e gostando. A ambientação exclusivamente ianque − sim, há neve e há jazz − continuava me arranhando os nervos, mas o carisma de Kate Whishaw, o enredo mirabolante e a potência da linguagem literária me abraçaram com força. Blues for Mr. Name é uma viciante ficção futurista encharcada de esoterismo cristão. Terminada a leitura, concordei com os amigos: Reinaldo Santos Neves é sem dúvida um de nossos melhores escritores.

A história transcorre num futuro indeterminado − ou numa realidade paralela, se o leitor preferir − em que a civilização descambou de vez para uma grande orgia consumista e a Igreja Católica está quase extinta. Nessa realidade promíscua, a jovem Kate é um dos últimos moicanos católicos e uma agente divina maldita, predestinada a atender ao derradeiro desejo trágico de uma criatura meio fantasmagórica meio alienígena chamada Deus − ou Mister Name.

As marcantes características que definem a protagonista − uma mulher de belíssima beleza feia − são a misantropia (para Kate os humanos tornaram-se os piores seres da Criação) e o estigma da não-amada (qualquer homem que tente possuí-la cai fulminado por uma força invisível). Há homens na narrativa, cumprindo um papel importante, mas esses acabam ofuscados pela importância e pelo carisma das muitas mulheres. Entre elas destaco a perigosa Hope Jessup, “o primeiro ser humano a nascer no espaço, a nascer no céu”, e a ex-prostituta Lily Van Den Poorn, agora uma artista pornográfica, por quem Kate sente um relutante afeto.

Composto por dezenas de minicapítulos de parágrafo único, narrados ora por Kate, ora por outros personagens, ora por um suposto biógrafo-testamenteiro, Blues for Mr. Name, cujo subtítulo-spoiler é Deus está doente e quer morrer, sustenta-se na ironia certeira e na linguagem sinuosa e sofisticada, cheia de surpresas poéticas. Um recurso muito usado pelo romancista − recurso que sempre me agradou, nas poucas vezes que o encontrei por aí − é a repetição intencional de palavras, fazendo do pleonasmo e da anáfora uma insistente marca de estilo.

Exemplos: “tempestade de relâmpago sem trovão e trovão sem relâmpago”, “seu corpo níveo se confundia nu com a nua neve”, “sem nem perguntar se podia sentar-se ou mesmo sentar-se sem nem perguntar se podia”, “amaldiçoada por toda a eterna eternidade”, “irada de ira”, “o que era possivelmente impossível”, “mas nem a Desobediência desobedece nem a Negação nega”, “honra das mais honrosas honrarias”, “um protocolo protocolar”, “no grande e grandioso salão”, “sem o menor dos menores esforços”, “os irmãos de José veneraram José no sonho de José”, “pediu que esclarecesse claramente”, “Kate vê que é impossivelmente impossível intervir”, “ela sente isso na alma de sua própria alma”…

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

A telepatia são os outros

A telepatia são os outros

Ana Rüsche
Monomito Editorial
120 páginas
Lançado em 2019

A ficção científica é o único gênero literário e artístico habilitado a prever as invenções e o estilo de vida do futuro, é verdade, mas também é verdade que essa não é a sua principal função. Sua principal função é puramente estética, ou seja, a mesma de qualquer outra criação literária e artística. Apesar disso, ó meus irmãos, verificar nas obras-primas da FC seus acertos futurológicos não é realmente um passatempo superdivertido? E, se prestarmos bastante atenção, não há uma só tecnologia moderna − da bomba atômica à world wide web, da engenharia genética à inteligência artificial − que não tenha sido prevista pela FC.

De tudo o que as obras de ficção científica previram, mas ainda não se realizaram − por ofender as leis da física (viagem no tempo e teletransporte) ou por falta de oportunidade (civilização alienígena e colonização de Marte) −, atualmente me interessam sobremaneira o upload mental e a telepatia. Das duas tecnologias, o upload mental foi a que mais atenção recebeu dos autores talentosos, nesses duzentos anos de FC moderna. Menos comum, a comunicação direta e à distância entre duas ou mais mentes, batizada pelo consenso de telepatia, surgiu primeiro em contos obscuros dos anos 50 − segundo o saite Technovelgy − e depois esporadicamente na obra de Philip K. Dick e em alguns mangás cyberpunks, tipo Ghost in the shell. Mas nunca na condição de protagonista. E esse foi o primeiro grande acerto do romance breve de Ana Rüsche: trazer a telepatia para o centro do palco brasuca.

O segundo grande acerto foi desvincular a origem da telepatia de qualquer avançada tecnologia eletrônica. No romance, a telepatia é uma tecnologia orgânica, de origem vegetal. É um fermentado ancestral de sabor forte e enjoativo, que as camponesas do Chile preparam secretamente há séculos. Essa escolha literária intensificou na trama a mitologia dos povos ameríndios, reivindicando pra si parte do protagonismo do conceito de brain-net, esse mais novo clichê da FC anglófona. Não é por acaso que o conflito que impulsiona a narrativa − e pega de surpresa a brasileira Irene − acontece justamente no mitológico Chile, primeiro numa esotérica comunidade rural, depois na frenética e cosmopolita Santiago.

A tecnologia eletrônica entra na segunda etapa da história, quando Irene e os novos amigos já estão treinados na arte da telepatia, mas em pequena escala. O objetivo agora é expandir a capacidade humana de comunicação mental, transformando-a, com a ajuda da internet, numa atividade planetária. Nem todos são a favor dessa disseminação global. Porém um empresário ianque roubou a fórmula do fermentado, tempos atrás, a fim de patenteá-la, tornando inevitável a corrida pela conexão mente-bebida-internet.

Visto que a ficção científica ainda é um território predominantemente masculino − e machista −, também gostei de encontrar, nessa narrativa escrita por uma mulher, personagens femininas fortes e carismáticas. Os três personagens masculinos, por outro lado, são um ladrão ianque, um amigo vingativo e um amigo boa-praça mas impotente (não no sentido sexual, mas de alguém que não consegue se conectar telepaticamente). Aliás, neste livro breve, tão importante quanto o enredo (substantivo masculino) é a linguagem (substantivo feminino) que expande a subjetividade-fêmea do texto e da telepatia. Recursos da melhor prosa modernista, emprestados da poesia primeiramente pelos grandes ficcionistas do século 20, fortalecem a narrativa, criando uma atmosfera onírica, às vezes fantasmagórica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

 

Matando gigantes

Matando gigantes

Claudia Dugim
Patuá Editora
336 páginas
Lançado em 2019

Num estudo publicado em 2005, sobre o personagem do romance brasileiro contemporâneo, pesquisadores da UnB demostraram estatisticamente que no romance brasileiro do período analisado − entre 1990 e 2004 − os personagens são, em sua maioria, do sexo masculino, brancos, heterossexuais, de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade. De lá pra cá a situação melhorou um pouco, mas ainda é visível o desequilíbrio, a falta de diversidade social em nossa literatura contemporânea. Esse fenômeno reflete perfeitamente a histórica crise de representatividade na própria sociedade brasileira. Nossas elites patriarcais sempre reprimiram e silenciaram a multiplicidade de vozes das minorias e dos marginalizados.

A principal qualidade do romance Matando gigantes, de Claudia Dugim, é a diversidade social e cultural. Nessa narrativa ambientada no ano 2127, numa astronave que acaba de alcançar seu destino, o homem branco hetero de classe média ou alta, com alto grau de escolaridade, também aparece, mas agora ele não é hegemônico. A romancista obrigou-o a dividir o palco não somente com indivíduos de outros gêneros e etnias, mas também com minúsculos humanoides com antenas, de pele azul-marinho ou verde-água, muito carismáticos e vingativos.

Há oitenta e cinco anos no espaço, o cruzador Frontier é a única nave que sobrou de um grupo de quatro astronaves colonizadoras. Em seu interior, trezentas e cinqüenta mil pessoas se acotovelam, reproduzindo as mesmas injustiças sociais e a mesma perversa luta de classes do planeta de origem, a Terra. Quando o Frontier finalmente alcança seu destino, Terra 2, os ânimos desse pessoal já estão bastante acirrados. Nesse momento tem início uma série de assassinatos estranhíssimos, que acaba jogando os cidadãos de segunda classe − latinos, índios, negros, amarelos, mulheres, comunidade LGBTQ+ etc. −, oprimidos desde sempre, contra a elite branquela que comanda a nave também desde sempre.

Os assassinatos são cometidos pelos minúsculos humanoides com antenas − autodenominados de povo das Estrelas Caminhantes −, em retaliação a um genocídio provocado involuntariamente pelos gigantes − os seres humanos − tempos atrás. Ignorantes desse fato, os cidadãos oprimidos se revoltam, pois acreditam que as mortes foram provocadas secretamente pela elite branquela, que estaria planejando uma manobra política às vésperas do desembarque. Formam-se então três núcleos antagônicos: o dos rebeldes haitianos, comandados por Mama Bá e Alfonsine, o dos privilegiados conselheiros da nave, defendido por Martina e Juan, e o dos pequeninos que vivem numa tubulação, comandados por Cherv, Uor e Gus.

Claudia Dugim planejou esse romance para o leitor jovem adulto, entre catorze e vinte e um anos. Mas é verdade que os bons livros escritos pra esse público costumam encantar também o público adulto. (Aliás, até mesmo a boa literatura infanto-juvenil beneficia-se desse fenômeno. “Uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim”, dizia C.S. Lewis.). Em Matando gigantes, a liberdade e a fraternidade anarquistas − macunaímicas − do povo das Estrelas Caminhantes desativaram meu racionalismo, camada após camada, e me afetaram emocionalmente. Voltei a ser um jovem adulto. Voltei a sentir um pouco daquele prazer antigo, do meu primeiro contato com a literatura fantástica.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.