Sozinho no deserto extremo

Sozinho no deserto extremo

Luiz Bras
Editora Prumo
320 páginas
Lançado em 2012

A despeito dos que sofrem de misantropia, viemos ao mundo para viver em sociedade. Nada somos sem o outro para nos descobrir. Se em nossa existência aprendemos realmente a conviver, é outra questão. Inconteste, a solidão causa desconforto. Ou, se extrema, a loucura. E esse labiríntico estado psicológico causado, entre outras coisas, pela solidão, é a premissa de Luiz Bras em seu romance Sozinho no deserto extremo.

Nessa grande obra, o autor nos presenteia com um enredo alucinado, em que o espetáculo da loucura é a melhor companhia para o leitor.

Sozinho no deserto extremo surpreende. Especialmente por tratar a ficção científica com a seriedade que merece. Luiz Bras exercita o gênero com o cuidado e a sabedoria de quem não só conhece o ofício da escrita, mas da literatura. Tanto que o livro não se parece com um desses clichês. O conceito de Matrix, por exemplo, está mais dentro do que fora da personagem.

Davi – propositadamente o estereótipo da maioria de nós –, certa manhã se vê sozinho no mundo. Ao acordar, é invadido pela realidade do nada. Onde, todos? Mulher, filhos, vizinhos do prédio, da rua, da São Paulo inteira. Onde? Aqueles que um dia existiram se foram. O deserto que tem o caos como paisagem invadiu o universo de Davi.

Ao despertar num admirável mundo novo tudo está à disposição do protagonista, basta pegar e aproveitar. A vida realmente parece perfeita, vista por esse prisma. Será bela, a solidão? Por estar sozinho no mundo, Davi dispõe de tudo, a qualquer hora. E pode ir a qualquer lugar sem ser incomodado por ninguém. Assim, passado o susto de se ver sozinho, Davi faz exatamente igual ao personagem de Ray Bradbury, abandonado em Marte: perambula pela cidade e aproveita. O mundo é todo seu. As pessoas se foram. Restaram apenas montinhos de roupas pelo chão.

No entanto, o importante não é descobrir como todos sumiram. O mais contundente é acompanhar a trajetória de Davi e observar o poder aterrador da solidão. Deus fez o mundo em seis dias, no sétimo, descansou. E no oitavo dia (que é o primeiro dia na obra de Luiz) a solidão começou a mostrar seu lado irascível, preparando-se para exterminar tudo o que foi feito.

Para matar a solidão, é preciso estar acompanhado. E uma batalha precisa ter propósitos. Não é sem razão que Davi, sozinho no deserto extremo, encontra companhia e motivos para guerrear.

Um telefonema. Depois mais. Uma mulher do outro lado da linha. Se é verdade ou imaginação de Davi, o leitor descobrirá. De todo modo, o protagonista se vê num dilema: ser um herói ou um covarde? A mulher precisa ser salva. Valerá a pena? Será ela merecedora? Existe a mulher perfeita, capaz de arrancar o homem de sua raiz com o intuito de salvá-la?

A mulher perfeita para Davi não é a do telefone. É Graça, sua amante. Graça, a boneca inflável que o acompanharia nos bons e nos maus momentos. Apesar disso (Adão e Eva – Davi e Graça), o mundo não se faz somente com um homem e uma mulher. A menina-santa, uma garota de dez anos que é encontrada brincando com um vibrador no sex shop, também povoa a solidão de Davi e se torna a razão maior de sua batalha contra os perseguidores.

Mas, afinal, quem são essas pessoas? Seriam tão-somente fruto do delírio solitário? Só há um jeito de você saber: ficar acompanhado de Sozinho no deserto extremo.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Germina. ]

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Delacroix escapa das chamas

Delacroix escapa das chamas

Edson Aran
Editora Record
176 páginas
Lançado em 2009

Que Brasil você quer para o futuro? Eis o questionamento direcionado a telespectadores, e para o qual conta-se com o envio de vídeo-resposta. Fosse eu responder à renomada emissora – você sabe qual – antes de ler Delacroix escapa das chamas, a minha resposta seria uma. Agora, é outra. Eu quero um Brasil com mais escritores feito Edson Aran, autor desse inusitado livro. O Brasil que ele imaginou para o futuro, uma São Paulo (ano 2068) refém do apartheid social, pode ser delirante mas, em muitos aspectos, é uma metáfora deliciosa e bem-humorada do nosso presente.

Essa mistura de ficção científica bem-sucedida com sátira e crítica social, que Aran prefere classificar como sátira política, é uma obra ágil, fértil em possibilidades (inúmeras associações e interpretações), e não flerta com a mesmice. Da leitura chata, o leitor está livre!

Um dos personagens, Ibr Barn Scrid, após sucessivas reeleições, decide transformar a França num califado. Ele, presidente aclamado califa, manda queimar todos os museus por violarem as leis do Alcorão ao exporem figuras humanas, mulheres peladas, deuses e deusas pagãos. Um quadro legítimo do pintor francês Eugène Delacroix escapa das chamas e vai parar em São Paulo. Eis o argumento que intitula o livro e presenteia o leitor com diferentes tramas, usando a arte como fio condutor do novelo imaginativo.

Nessa sua novela em quatro tempos (ou, para ficar mais claro, quatro contos interligados que, justapostos, podem ser denominadas de novela) a sociedade sofre brutal ruptura, de tal sorte que a classe alta repudia a baixa que, por sua vez, vive uma guerra civil.

Na distopia do autor, a high society concentra-se, na verdade, em redomas. Se no mundo atual as pessoas abastadas vivem em condomínios fechados, passeiam, consomem e se entretêm nos shoppings, na ficção de Aran, para se viver dignamente com segurança e desfrutar de tudo o que o crédito pode pagar (sem crédito você está excluído), só se for nas shopping cities. Estas separam a sociedade em dois mundos, os consumistas e os que não podem consumir, restando aos excluídos uma só alternativa, a barbárie.

Na Shopping City 22 vivem cinquenta mil consumidores, entre eles o protagonista: o crítico de arte Wagner Krupa. Shopping City 22 é o lugar onde o autor dá vida, não só a Wagner, mas a prostitutas cibernéticas, origamis assassinos, uma despachante sexy, padres inescrupulosos, obra de arte que come gente e até gente que usa a mutação genética para virar porco e tatuar o corpo. Sim, a arte nessa ficção é viva, orgânica. Ou, de acordo com o autor, é bioarte. “Você chama isso de arte? (…) Tatuar um porco?” “Não. (…) Arte é alterar geneticamente o seu corpo para parecer um porco. E depois ser tatuado com desenhos renascentistas…” (páginas 143-144).

Essa sociedade onde os sem crédito não podem entrar lembrou-me o filme Elysium. Quem conhece essa ficção científica sabe que a Terra, devastada, é o reduto da escória e da classe pobre. Elysium, o mundo perfeito, acima da Terra (redoma no céu) é habitado apenas pelos ricos.

Não dá para dizer que Aran bebeu da fonte de Elysium, claro que não. Delacroix escapa das chamas, afinal, é de 2009 e Neill Blomkamp escreveu e dirigiu o filme depois, em 2013. Coincidências à parte, não existe nada como essa ficção. “Edson Aran é diferente de tudo o que você já leu. Em qualquer língua”, escreveu Ivan Lessa.

Há quem diga que esse não é um livro profundo, desses de se levar a sério. Outros adoram. Alguns classificam a linguagem como confusa. Não importa qual opinião pese mais na balança, cada leitor, afinal, tem a sua. A minha é a de que essa ficção em que a França assumiu a forma islâmica de governar, e por isso mesmo queimou museus, traz ingredientes de leitura que vão além das palavras. Ler o não escrito, só para lembrar, é ler. E ler Delacroix escapa das chamas é entender que o delírio narrativo proposto, além de nos fazer pensar e rir, nos livra de um mundo cada vez mais chato.

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Newton Cesar é escritor, autor de Um minuto e A morte é de matar, entre outros.