Fome

Fome

Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas
Lançado em 2008

Imagine um mundo devastado por uma guerra ou uma catástrofe de proporções gigantescas. Um mundo onde não há mais ordem, governo, civilização. E principalmente onde não há mais comida. Acredite, esse mundo não é tão fácil de se imaginar. E, mesmo se você conseguir, vai ser difícil imaginar um mundo tão chocante quanto o que Tibor Moricz criou.

Fome é um fix-up, um conjunto de contos que podem ser lidos separadamente, mas se relacionam durante a leitura. Em cada um dos quinze contos apresentados, o autor nos mostra cenas diferentes de uma cidade devastada pela guerra e pela doença. Simplesmente não há mais alimento disponível, e as pessoas passam então a ter que se virar como podem.

Esse “se virar como podem” significa que o ser humano deixou de se importar com as relações familiares ou de amizade. O próximo passa a ser um concorrente pelo alimento, ou na maioria dos casos o próprio alimento. Quando a fome aperta, vale tudo: papel, terra, insetos e, é claro, outras pessoas.

Cada um dos contos-capítulos mostra um personagem diferente. Há o caçador, que sai diariamente em busca do alimento e é impulsionado pela adrenalina de matar outras pessoas. Há o erudito, que alimenta corpo e mente com o papel de grandes clássicos da literatura. Há a sedutora, que usa o que restou de beleza para atrair os homens. O renitente, que insiste em não comer carne humana, mesmo sabendo que não existe outra saída. O demente, que não sabe mais o que é real ou ilusão. Os que atacam em bando. Os que se defendem em bando. E os religiosos: pregadores, messias e salvadores, que usam o temor dos homens em benefício próprio.

A descrição que o autor faz de cada um desses personagens é fantástica. Seus medos e sentimentos são expostos de maneira chocante e assustadora.

Conversando certa vez com Tibor, ele contou que a ideia para escrever Fome veio do conto O caçador, o primeiro do livro, e um dos melhores. Essa narrativa é muito forte, e deixou o autor tão impressionado a ponto de sonhar com o que tinha escrito e na manhã seguinte concluir que ainda havia muito mais a ser explorado a partir do mesmo tema.

Não vou fazer um resumo de todos os contos, mas posso mencionar os meus preferidos:

O caçador: o conto é realmente chocante, talvez por ser o primeiro e já nos jogar nesse mundo maluco. A frieza do caçador é assustadora, e o final é surpreendente. Eu não esperava um livro tão forte e violento, e essa narrativa é uma boa amostra do que está por vir.

O pregador: gosto do apelo religioso desse conto. O discurso do pregador convence e mostra que o ser humano muitas vezes só escuta o que lhe interessa.

O obsessivo: dá para imaginar um sujeito metódico e cheio de manias vivendo num mundo assim? Pode apostar que dá.

O prisioneiro: medo e terror. É isso o que sente quem sabe que está perto da morte. O protagonista desse conto sabe que vai morrer logo, mas não sabe quando, nem como. Mas sabe que vai morrer. E ainda assim, apesar do medo, sente conforto ao crer em algo superior.

A matilha: uma verdadeira guerra de gangues entre dois grupos de caçadores. Muito sangue e violência.

O messias: no meio da sangrenta batalha entre dois grupos de caçadores, surge o messias trazendo promessas de uma vida melhor. Acredita quem quer.

Fome é um livro muito bom, muito bem escrito, mas é um livro forte. Assim como os protagonistas de cada conto, o leitor precisa ter um estômago resistente. Ao final da leitura, carne rasgada com os próprios dentes, sangue para matar a sede, nervos e músculos sendo devorados com apetite, tudo isso passa a ser coisa normal.

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Daniel Borba é ficcionista e resenhista, tendo participado da coletânea Nevermore e organizado a coletânea 2013: Ano Um, com Alícia Azevedo.

[ Resenha publicada originalmente no blogue Além das estrelas. ]

Os livros brasileiros de ficção científica mais importantes

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Com o propósito de compor uma bibliografia básica da ficção científica brasileira, endereçada a qualquer leitor ou escritor que não conheça nada dessa tradição com mais de um século de existência, provoquei vários colegas de ofício com a seguinte pergunta:

Em sua opinião, quais são os cinco livros brasileiros de ficção científica mais importantes?

As indicações abaixo começam a desenhar o paideuma da FC brasuca. Mas esse resultado é parcial, pois a enquete ainda não terminou. Se você não enviou sua lista, agora é a hora.

Alvaro Domingues
1. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
2. A cidade perdida, de Jeronymo Monteiro (1948)
3. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
4. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
5. O grito do sol sobre a cabeça, de Brontops Baruq (2012)

Ana Cristina Rodrigues
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. O doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1875)
3. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
5. A lição de anatomia do temível dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Ana Lúcia Merege
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
3. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
4. Dieselpunk, organização de Gerson Lodi-Ribeiro (2011)
5. O esplendor, de Alexey Dodsworth (2016)

André Cáceres
1. Histórias do acontecerá, organização de Gumercindo Rocha Dórea (1961)
2. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
3. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
4. Distrito federal, de Luiz Bras (2014)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Ataíde Tartari
1. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
2. Todos os portais, organização de Nelson de Oliveira (2012)
3. O fruto maduro da civilização, de Ivan Carlos Regina (1993)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
5. Estranhos contatos, organização de Roberto de Sousa Causo (1998)

Braulio Tavares
1. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
2. Histórias do acontecerá, organização de Gumercindo Rocha Dórea (1961)
3. Além do tempo e do espaço, organização de Álvaro Malheiros (1965)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. O vampiro de Nova Holanda, de Gerson Lodi-Ribeiro (1998)

Brontops Baruq
1. Diário da Guerra de São Paulo, de Fernando Bonassi (2007)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
3. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)
4. Caçador de apóstolos, de Leonel Caldela (2010)
5. O homem fragmentado, de Tibor Moricz (2014)

Bruno Anselmi Matangrano
1. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
3. O doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar (1875)
2. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)
4. As águas-vivas não sabem de si, de Aline Valek (2016)
5. A República 3000, de Menotti del Picchia (1930)

Caio Bezarias
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Fome, de Tibor Moricz (2008)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)
5. O alienista, de Machado de Assis (1881)

Carlos Angelo
1. Projeto Evolução, de Henrique Villibor Flory (1990)
2. Linha terminal, de Jorge Luiz Calife (1991)
3. Horizonte de eventos, de Jorge Luiz Calife (1986)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)

Carlos Orsi
1. Intempol, organização de Octavio Aragão (2000)
2. Histórias de Carla Cristina Pereira, de Gerson Lodi-Ribeiro (2012)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
5. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)

Cesar Silva
1. O alienista, de Machado de Assis (1881)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. O doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar (1875)
4. Tangentes da realidade, de Jeronymo Monteiro (1969)
5. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Claudia Dugim
1. Sankofia, de Lu Ain Zaila (2018)
2. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
3. O esplendor, de Alexey Dodsworth (2016)
4. A torre acima do véu, de Roberta Spindler (2014)
5. Solarpunk, organização de Gerson Lodi-Ribeiro (2012)

Cláudia Oliveira
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)
3. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
4. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
5. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)

Davenir Viganon
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)
3. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
4. O alienista, de Machado de Assis (1881)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Dorva Rezende
1. A espinha dorsal da memória / Mundo fantasmo, de Braulio Tavares (1996)
2. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)
3. Comba Malina, de Dinah Silveira de Queiroz (1969)
4. Tempos de fúria, de Carlos Orsi (2005)
5. A Terceira Expedição, de Daniel Fresnot (1987)

Fábio Fernandes
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Zigurate, de Max Mallmann (2003)
5. A Terceira Expedição, de Daniel Fresnot (1987)

Gerson Lodi-Ribeiro
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
3. Guerra justa, de Carlos Orsi (2010)
4. E de extermínio, de Cirilo Lemos (2015)
5. O esplendor, de Alexey Dodsworth (2016)

Gianpaolo Celli
1. Antologia FCdoB 2006-2007, organização de Pedro Rangel (2007)
2. Portal Solaris, organização de Nelson de Oliveira (2008)
3. Retrofuturismo, organização de Romeu Martins e Gianpaolo Celli (2012)
4. A mão que cria, de Octávio Aragão (2006)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Ivo Heinz
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Intempol, organização de Octavio Aragão (2000)
3. A espinha dorsal da memória, de Bráulio Tavares (1989)
4. O dia da nuvem, de Fausto Cunha (1980)
5. Diário da guerra de São Paulo, de Fernando Bonassi(2007)

Luiz Bras
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Mnemomáquina, de Ronaldo Bressane (2014)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Amorquia, de André Carneiro (1991)
5. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)

Marcia Olivieri
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
3. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)

Miguel Carqueija
1. Os bruzundangas, de Lima Barreto (1922)
2. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)
3. 9225, de Sylvia Regina (1989)
4. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
5. Dário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Mustafá Ali Kanso
1. Confissões do inexplicável, de André Carneiro (2007)
2. Amorquia, de André Carneiro (1991)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1991)
5. Piscina Livre, de André Carneiro (1980)

Octavio Aragão
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1996)
2. Tempos de fúria, de Carlos Orsi (2005)
3. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
4. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Ramiro Giroldo
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
4. O diálogo dos mundos, de Rubens Teixeira Scavone (1961)
5. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)

Ricardo Celestino
1. Favelost, de Fausto Fawcett (2012)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
4. Distrito federal, de Luiz Bras (2014)
5. Caçador cibernético da rua 13, de Fabio Kabral (2017)

Ricardo Santos
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Roberto de Sousa Causo
1. A Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls (1925)
2. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
3. O 31º peregrino, de Rubens Teixeira Scavone (1993)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (2008)
5. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Rodrigo van Kampen
1. Filhos do fim do mundo, de Fábio Barreto (2013)
2. Metanfetaedro, de Alliah (2012)
3. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
4. A torre acima do véu, de Roberta Spindler (2014)
5. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)

Romeu Martins
1. O alienista, de Machado de Assis (1882)
2. O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro (1989)
3.  Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
4.  A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Steampunk: histórias de um passado extraordinário, organização de Gianpaolo Celli (2009)

Ronaldo Bressane
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
3. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)

Sid Castro
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Glória sombria, de Roberto de Sousa Causo (2013)
3. Portal Fahrenheit, organização de Nelson de Oliveira (2010)
4. A República 3000, de Menotti del Picchia (1930)
5. Dieselpunk, organização de Gerson Lodi-Ribeiro (2011)

Silvio Alexandre
1. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
2. Antologia brasileira de ficção científica, organização de Gumercindo Rocha Dorea (1961)
3. Amorquia, de André Carneiro (1991)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Outras histórias, de Gerson Lodi-Ribeiro (1997)

Tiago Castro
1. Fome, de Tibor Moricz (2008)
2. Os reis do Rio, de Rafael Lima (2012)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Espada da galáxia, de Marcelo Cassaro (1995)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Tibor Moricz
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
3. O par, de Roberto de Sousa Causo (2008)
5. Interface com o vampiro, de Fábio Fernandes (2000)