Fuga para parte alguma

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Jeronymo Monteiro
Edições GRD
148 páginas
Lançado em 1961

A trama desvenda – com estilo rico e seguro — um futuro incomensurável e imagina uma situação terrificante para a humanidade. Aliás, os comentários que acompanham as caprichadas edições de Gumercindo Rocha Dorea (que devem ter sido redigidos por ele) costumam ser magníficos, e não resisto à tentação de transcrever o da quarta capa desse livro:

O Homem, na plenitude de sua capacidade técnica, dono de uma extraordinária civilização, teve de enfrentar, repentinamente, o menor e mais ativo dos inimigos: a formiga.
E o combate foi travado em todos os setores e em todos os momentos, incansavelmente.
As grandes cidades, as usinas atômicas, as fabulosas estradas intercontinentais, tudo ruía e se convertia em escombros.
Milhões e milhões de homens eram devorados inexoravelmente.
Mas os sobreviventes lutavam… para quê?
Haveria a possibilidade de fugir para alguma parte?

A ideia de que a humanidade, com toda a sua tecnologia, venha a ser desafiada por uma força da natureza, é uma recorrência da ficção científica. Todavia, Monteiro conseguiu formalizar um romance sóbrio e de arcabouço clássico, uma obra inesquecível.

Há, certamente, limitações no enredo. Os seres humanos pecam, ao longo do drama, pela falta de imaginação. Em última análise, não se cogita combater as formigas com veneno. As vilãs são as gigantescas e ferozes formigas carnívoras amazônicas, que alcançam vinte e dois centímetros de comprimento!

Assim, causam forte impressão, primeiro a cena do ataque ao coelho, depois a do ataque aos dois homens, com detalhes bem cruéis. Algo comparável ao ataque de piranhas.

Porém, para além das tragédias particulares, é impressionante o quadro descortinado pelo autor, da derrocada de toda uma civilização orgulhosa:

Os locais onde tinham se erguido, no passado próximo, as cidades imensas, eram vastas ruínas, já cobertas de montes verdejantes. Era assombroso como a obra humana, que tivera aparência indestrutível, se esboroava inteiramente sob a pressão de insetos e de pequenas plantas, suaves e teimosas. Era como se jamais tivesse sido mais que um punhado de barro amassado com água. E dos restos que ainda se reconheciam como atestado de uma passada grandeza, dentro de alguns anos nada mais restaria — quando as chuvas, os ventos, as plantas e os insetos tivessem prosseguido em sua obra, cobrindo tudo com o sudário inevitável, sepultando para sempre os restos do que fora uma assombrosa civilização.

O drama passa-se num futuro incrivelmente distante − o século 122 − e faz referência a outro romance clássico de Monteiro, Três meses no século 81, lançado em 1947. O autor evita exageros tecnológicos nesse futuro longínquo, embora fale das armas de Raios Vonde (recurso misterioso, curiosamente grafado com iniciais maiúsculas) e numa civilização orgulhosa, toda certinha e setorizada.

 Esse mundo é bastante patriarcal. Monteiro parece não ter se acostumado com a afirmação da mulher na sociedade moderna, e a presença feminina aqui pouco se destaca. Isso, porém, acontece com certa frequência na ficção cientifica, o que não deixa de ser paradoxal.

Filosoficamente, em Fuga para parte alguma, Monteiro transmite um evolucionismo radical, onde o Homem é uma espécie como qualquer outra, podendo ser levado à extinção por uma raça mais capaz.

Miguel Carqueija é ficcionista e ensaísta, autor de Farei meu destino, entre outros livros.

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