Shiroma: matadora ciborgue

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Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
248 páginas
Lançado em 2015

A ciborgue assassina do fix-up de Roberto de Sousa Causo carrega uma concha que sempre leva aos ouvidos quando algum acalento se faz necessário ou quando as dúvidas se apresentam. Vinda de dentro da concha, soa a voz da mãe, com mensagens de conforto e, às vezes, indicações de como agir. Também seu eu infantil está lá, a fim de lembrar que as coisas já foram diferentes. Para suportar a vida de assassina que lhe foi imposta, a ciborgue cultiva a memória de suas origens, de um tempo em que ainda era chamada de Bella Nunes, e não Shiroma. Restituir o estado original é seu objetivo: escapar do casal que a raptou ainda criança, atraídos pelo potencial de seu organismo biocibernético, e voltar ao nome Bella. Em um horizonte distante, é seu projeto utópico abandonar a identidade e a ocupação impostas. As duas últimas histórias do volume lidam diretamente com esse objetivo.

Falando em utopia, esse é um tópico que reaparece insistentemente em diversas das onze narrativas a compor o fix-up, e no próprio cenário interestelar de Shiroma. Há utopia na representação de uma humanidade que foi para além de seu planeta natal, empreendendo uma jornada de descobertas, de um verdadeiro contato com a alteridade – ambientes outros e consciências outras, capazes de colocar sob uma diferente perspectiva a própria humanidade em seus preceitos e preconceitos.

Colabora com esse propósito o completo domínio narrativo de Causo, que salta aos olhos na forma como a fabulação mantém um ritmo instigante e sem embaraços, bem como no uso do foco narrativo apegado às percepções de Shiroma. Um dos segmentos do fix-up, A extração, abandona o ponto de vista da personagem de forma segura, e o leitor sente que está em boas mãos: a estratégia apresenta contrapontualmente um necessário olhar externo a Shiroma, contribuindo para uma compreensão mais ampla dela e, também, da Era Galáctica. Esta, cabe lembrar, é compartilhada por outro personagem de Causo, Jonas Peregrino, o protagonista do romance Glória sombria e de alguns contos – Peregrino, inclusive, é mencionado em diversas ocasiões em Shiroma: matadora ciborgue. Futuramente, o projeto do autor é promover o encontro entre os dois personagens.

Shiroma é uma representação positiva do feminino, capaz de evocar analogias com a circunstância autoritária imposta pelo patriarcado. Como as mulheres de nossa realidade imediata, a personagem precisa se libertar de papéis a ela impostos ou, ao menos, reinventá-los.

Por fim, algumas palavras ainda sobre a concha que presentifica o passado para Shiroma. É bastante significativo que o artifício ficcional a sugerir caminhos e esperanças para o porvir remeta ao passado: um indicativo de que o novo curiosamente precisa de algum vínculo com o que veio antes (com a tradição que precisa antropofagicamente ser digerida) para de fato atuar no presente. É um procedimento caro a Causo também em outro plano: o da tradição literária da ficção científica explicitamente trazida à tona nas dedicatórias de algumas das narrativas, interessadas em homenagear autores como Fausto Cunha, Rubens Teixeira Scavone e Clark Darlton. A ficção científica, assim, pode olhar para o futuro e construir como bem desejar sobre fundações instituídas – como o faz toda a literatura, aliás.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

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