Adaptação do funcionário Ruam

Funcionário Ruam

Mauro Chaves
Editora Perspectiva
120 páginas
Lançado em 1975

A FC brasileira da década de 1970, dentro do Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982), é pouco conhecida e estudada. O capítulo de M. Elizabeth Ginway a respeito, em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no País do Futuro (2004), é um marco nesse estudo. Este Adaptação do funcionário Ruam é discutido lá. A Coleção Paralelos, em que o romance foi publicado, apresentou figurões como Isaac Bashevir Singer e Paulo Emílio Salles Gomes.

A história se passa numa São Paulo futura, com os pontos da cidade renomeados com uma dicção estrangeira, o que Afonso Schmidt já tinha feito no conto O último homem, de 1928. Chaves vai além, aglutinando termos do inglês, francês ou espanhol a palavras portuguesas. Há ecos do Modernismo de 22 nisso: “Que imediatamente Carliós saltou da esterola. Puxou então seu apitor. Pendido do pescoço, subeveste. E deu três longos apitos gesticulando para todos os transeuntes daquele plano de underground.” Há mais recursos formalistas: cada capítulo é desenvolvido em parágrafo único (narrado por um computador); a prosa poética assume alguns trechos; situações absurdistas são evocadas. O tom e fluxo da linguagem são o ponto forte do texto, que sobrevive às faltas da revisão.

A história começa com Ruam sendo um caxias da armitropa que mantém o regime da Potestade Brazileina, no futuro. Mas não consegue esquecer o triângulo bissexual (ordenado pelo regime) que viveu com a esposa Miraia e um soldado morto. O amor erótico dele por Miraia o faz voltar-se contra o regime, algo comum na distopia clássica desde o recém-relançado Nós (1924), de Yevgeny Zamyatin, mas aqui em cena homoerótica de absurda conferência de estratégia militar numa sauna com piscina.

O regime parece ter absorvido os elementos de tipicidade da cultura brasileira: o fotebol que todos são obrigados a jogar, onde quer que estejam, duas vezes por dia; o carnavel em que um robô tortura os dissidentes Contaminados; a mestiçagem purimarrona; e até mesmo a oposição: os Contaminados têm repartição nos prédios do governo. O livro flerta com a potestade como regime fantoche de conglomerados internacionais. Quando o regime cai, os conglomerados treinam os cidadãos em visões místicas de revelação religiosa – que também falham com Ruam. Ele então é jogado num buraco de Alice e vai parar na São Paulo contemporânea. É preso, internado em hospício e violado por um enfermeiro.

O livro flerta também com a noção de que tudo não passa de um surto esquizofrênico ou pesadelo, como em Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (também com a presença do sexo homossexual). Trata-se, no fim, de realidade sintética em que vários cenários são jogados na consciência de Ruam para fazê-lo conformar-se. Mais parecido, portanto, com os posteriores Jogo terminal (1988), de Floro Freitas de Andrade (também com homossexualismo e computador tirano), e o dickiano O alienado (2012), de Cirilo S. Lemos.

O pequeno livro de Mauro Chaves curiosamente se posiciona como entroncamento de diversos momentos da FC brasileira, por codificar muito da literatura pop brasuca da década de 1970, e como a ficção científica distópica foi por ela manipulada.

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Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal GalAxis ]

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Os melhores contos brasileiros de ficção científica

melhores-contos

Roberto de Sousa Causo (organização)
Editora Devir
200 páginas
Lançado em 2007

Essa é a primeira de três antologias de ficção científica brasuca organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir. A segunda, de subtítulo Fronteiras, saiu em 2009 e a terceira, reunindo narrativas mais longas (novelas), em 2011. A trilogia oferece ao leitor vinte e nove ficções, de vinte autores fundamentais.

Na apresentação do primeiro volume, a história do gênero no Brasil é dividida em três períodos. O primeiro período, de produção mais ingênua e nacionalista, vai da segunda metade do século 19 até meados do 20. Esse é o período dos pioneiros, quase todos influenciados por Verne, Doyle e Wells.

O segundo período começa em 1960, com a coleção Ficção Científica GRD, do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, e termina no final da mesma década. Esse período, de produção mais autoconsciente e cosmopolita, é chamado de A Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira.

O terceiro período, de produção mais rica e diversificada, começa na década de 80 e continua até os dias de hoje, representando a Segunda e a Terceira Onda da FC brasuca. Bastante equilibradas, as antologias de Causo trazem o melhor de cada um desses períodos.

Não sou especialista no assunto, mas a sensação que eu tenho, diante da quantidade de saites, blogues e revistas online destinados ao gênero, é que a ficção científica brasileira está muito viva na internet, porém bastante fragilizada, quase moribunda, nas livrarias.

É claro que jamais deixou de acontecer o eterno pinga-pinga de coletâneas de contos e romances de autores nacionais. Mas a freqüência com que esses livros têm aparecido é pequena e insuficiente, incapaz de projetá-los pra fora de seu círculo alternativo e marginal, motivando mais e melhores leitores.

Nesse pinga-pinga, para cada cinco ou seis pingos medíocres, sem a mínima qualidade literária, há pelo menos um muito bom, inventivo, consistente, poético. No entanto, esses poucos autores talentosos que, com o passar dos anos, formam quase uma pequena multidão, não são reconhecidos como verdadeiros autores.

Seus livros não são resenhados nas principais revistas e nos principais cadernos culturais, e eles não são convidados para participar dos eventos literários mais prestigiados, reservados apenas aos que fazem, na falta de nome melhor, a alta literatura brasileira, essa mesma literatura que é ensinada nos colégios e nas faculdades de Letras.

O prestígio que prosadores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan desfrutam entre críticos, livreiros e leitores, autor algum de FC conseguiu ou está conseguindo desfrutar. A pergunta é: por quê? O que há em nossa ficção científica que a impede de sair do gueto, de ganhar as melhores estantes nas melhores livrarias e com isso ampliar seu público?

Essa não é uma pergunta retórica. Só seria se eu soubesse a resposta. A boa ficção científica brasileira é riquíssima. Há gente não apenas produzindo contos e romances interessantes, mas também refletindo e teorizando com perspicácia. Espero que vocês me ajudem a desvendar esse mistério. Também espero que possam, quem sabe, começar a desfazer esse nó editorial, esse por quê? desconfortável, que pra mim não faz sentido algum.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Silicone XXI

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Alfredo Sirkis
Editora Record
200 páginas
Lançado em 1985

Mais conhecido como autor do relato de resistência Os carbonários, de 1981, Alfredo Sirkis foi militante estudantil, guerrilheiro, exilado, anistiado, fundador do Partido Verde no Brasil e deputado federal com vários mandatos. Seu primeiro e único romance, Silicone XXI, inaugura o tupinipunk, subgênero que combina elementos do cyberpunk (menos por suas realizações, e mais por suas influências em comum) com tendências do modernismo, do tropicalismo e da literatura pop nacional. Depois dele vieram livros como Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett, Piritas siderais (1994), de Guilherme Kujawsky, e Distrito Federal (2014), de Luiz Bras.

Silicone XXI tem capa e ilustrações internas realizadas pelo artista franco-brasileiro de quadrinhos Al Voss, conhecido por colaborar com as revistas Métal Hurlant / Heavy Metal. Ambientada em 2019, a narrativa, quando não é abertamente cômica, é de burlesco baixo no seu tratamento de assuntos sérios, com leveza: um matador em série vem assassinando homossexuais com uma pistola laser privativa das forças armadas. Isso leva à investigação de uma operação secreta para exportar materiais nucleares a organizações terroristas no exterior e, mais tarde, a uma conspiração para envenenar com material radioativo a água potável do Rio de Janeiro.

Os protagonistas são o inspetor Zé Balduíno, policial negro de cinquenta e dois anos, e Lili “Brag” Braga, repórter televisiva de vinte e cinco anos, loura e sexualmente liberada, implacável na busca de notícias − uma espécie de antecessora da personagem Marcelina Hoffman do romance de Ian McDonald, Brasyl (2007), que seria chamado de tupinipunk pelo crítico Gary K. Wolfe da revista Locus. O vilão é Estrôncio Luz, ex-militar quarentão transformado em serial killer determinado a destruir o mundo. Seu nome é referência ao elemento radioativo estrôncio-90, e Sirkis o baseou no odioso general Newton Cruz, conhecido linha-dura dos tempos da ditadura, para satirizar a atitude de machismo estereotipado militar, ao dar ao vilão tendências homossexuais reprimidas (que ele abafa matando outros homossexuais) e um enorme pênis de silicone.

Há muito do espírito da literatura brasileira da década de 1970 no livro de Sirkis, principalmente com a referência às ideias tropicalistas e a inclusão de palavrões, sexo, referências pop e mudanças do tempo narrativo (do presente ao pretérito) e de pontos de vista. Mas em certos momentos soa como a prosa sobrecarregada de informações da escola cyberpunk, com algo de brasileiro misturado: “Favo de mel fosforescente, gorda margarida de neon no penhasco entre os seios de Dois Irmãos, com aquele letreiro de lasers coloridos dançando no céu de piche. A aproximação se dá por pouso automático na freqüência 36 TX.”

Mais importante, a ciência consegue fornecer alternativas econômicas e os seus paradigmas se misturam naturalmente com a espiritualidade. As pessoas são fundamentalmente boas − exceto por um bolsão de reacionários que acreditam no poder real e simbólico das armas atômicas. O impulso utópico de um Brasil mais pacífico e verde está em uma nova cultura que surge nas áreas rurais, comunidades que combinam alta tecnologia e práticas religiosas. Exemplifica o multiculturalismo tupinipunk no sincretismo e na mistura cultural. Um dos melhores exemplos do subgênero.

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

Shiroma: matadora ciborgue

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Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
248 páginas
Lançado em 2015

A ciborgue assassina do fix-up de Roberto de Sousa Causo carrega uma concha que sempre leva aos ouvidos quando algum acalento se faz necessário ou quando as dúvidas se apresentam. Vinda de dentro da concha, soa a voz da mãe, com mensagens de conforto e, às vezes, indicações de como agir. Também seu eu infantil está lá, a fim de lembrar que as coisas já foram diferentes. Para suportar a vida de assassina que lhe foi imposta, a ciborgue cultiva a memória de suas origens, de um tempo em que ainda era chamada de Bella Nunes, e não Shiroma. Restituir o estado original é seu objetivo: escapar do casal que a raptou ainda criança, atraídos pelo potencial de seu organismo biocibernético, e voltar ao nome Bella. Em um horizonte distante, é seu projeto utópico abandonar a identidade e a ocupação impostas. As duas últimas histórias do volume lidam diretamente com esse objetivo.

Falando em utopia, esse é um tópico que reaparece insistentemente em diversas das onze narrativas a compor o fix-up, e no próprio cenário interestelar de Shiroma. Há utopia na representação de uma humanidade que foi para além de seu planeta natal, empreendendo uma jornada de descobertas, de um verdadeiro contato com a alteridade – ambientes outros e consciências outras, capazes de colocar sob uma diferente perspectiva a própria humanidade em seus preceitos e preconceitos.

Colabora com esse propósito o completo domínio narrativo de Causo, que salta aos olhos na forma como a fabulação mantém um ritmo instigante e sem embaraços, bem como no uso do foco narrativo apegado às percepções de Shiroma. Um dos segmentos do fix-up, A extração, abandona o ponto de vista da personagem de forma segura, e o leitor sente que está em boas mãos: a estratégia apresenta contrapontualmente um necessário olhar externo a Shiroma, contribuindo para uma compreensão mais ampla dela e, também, da Era Galáctica. Esta, cabe lembrar, é compartilhada por outro personagem de Causo, Jonas Peregrino, o protagonista do romance Glória sombria e de alguns contos – Peregrino, inclusive, é mencionado em diversas ocasiões em Shiroma: matadora ciborgue. Futuramente, o projeto do autor é promover o encontro entre os dois personagens.

Shiroma é uma representação positiva do feminino, capaz de evocar analogias com a circunstância autoritária imposta pelo patriarcado. Como as mulheres de nossa realidade imediata, a personagem precisa se libertar de papéis a ela impostos ou, ao menos, reinventá-los.

Por fim, algumas palavras ainda sobre a concha que presentifica o passado para Shiroma. É bastante significativo que o artifício ficcional a sugerir caminhos e esperanças para o porvir remeta ao passado: um indicativo de que o novo curiosamente precisa de algum vínculo com o que veio antes (com a tradição que precisa antropofagicamente ser digerida) para de fato atuar no presente. É um procedimento caro a Causo também em outro plano: o da tradição literária da ficção científica explicitamente trazida à tona nas dedicatórias de algumas das narrativas, interessadas em homenagear autores como Fausto Cunha, Rubens Teixeira Scavone e Clark Darlton. A ficção científica, assim, pode olhar para o futuro e construir como bem desejar sobre fundações instituídas – como o faz toda a literatura, aliás.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

Glória sombria

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Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
176 páginas
Lançado em 2013

Jonas Peregrino, protagonista do romance de ficção científica militarista Glória sombria, já tem história. Cinco narrativas curtas do personagem vieram antes a público: Batalhas na memória, Descida no Maelstrom, Trunfo de campanha, A alma de um mundo e Tengu e os assassinos. Nelas, já nos deparamos com um protagonista experiente, calejado, alheio a dúvidas. Um herói pleno, capaz de solucionar conflitos de ordem moral, disposto a fazer valer o que considera justo. Nessas narrativas, seus parâmetros morais e de conduta já estão estabelecidos, e ele reage confiante aos conflitos.

Glória sombria, cronologicamente, é a primeira aventura de Jonas Peregrino. Causo caracteriza o personagem de forma inteligente: não extrai dele seu lado heroico, honrado, para apresentar sua inexperiência – mostrá-lo sem a fibra conhecida, afinal, o descaracterizaria sobremaneira. O protagonista hesita e se perturba com as consequências de seus atos, mas é tão incorruptível quanto o Peregrino mais velho das narrativas curtas.

Diz o marcador de página encartado na edição belamente ilustrada por Vagner Vargas:

No século 25 a humanidade já avança profundamente em direção ao núcleo da galáxia, a partir do seu berço, o Sistema Solar.
São quatro as Zonas de Expansão Humana, mas é na quarta − a mais rica e vasta, conhecida como A Esfera − que os diversos blocos políticos da Terra encontram o seu maior desafio: armadas de naves-robôs empenhadas em aniquilar todas as civilizações espaciais que cruzem o seu caminho, em nome da supremacia absoluta dos seus criadores.

Convocado pelo Almirante Túlio Ferreira, Peregrino tem a missão de criar uma nova unidade de combate. A relação com o Almirante é tensa e, a princípio, Peregrino antipatiza com sua postura. A relação entre ambos se dá em um crescendo. O que define os personagens e os torna reconhecíveis é o que vai provocar cada atrito (e cada sincronia).

Não apenas com os alienígenas Peregrino precisa se preocupar. Como que para compensar a falta de traços distintivos dos antagonistas tadais (cuja natureza é um mistério guardado para o futuro da série As lições do matador), há outros problemas para o protagonista, esses de rosto bem definido e até familiar. Há traições, inveja e intrigas entre os humanos. E Peregrino, para resolver os desafios ao seu comando e à humanidade, toma decisões amargas. Ao final do romance, já está com calos a mais.

Glória Sombria pode ser chamado de ficção científica brasileira, e não apenas de ficção científica do Brasil: consegue apresentar traços distintivos nacionais. A origem pantaneira de Peregrino não é o maior deles. O sense of wonder é dado pela incorporação de elementos brasileiros ao cenário de batalha: as descrições das espaçonaves de guerra com pinturas que remetem a animais de nossa fauna são um exemplo.

Causo promete dar continuidade à série. E mais: As lições do matador deve ter crossovers com outra série do autor, Shiroma: matadora ciborgue. Como isso vai se dar ainda está para ser contado, mas há um prenúncio em Glória sombria: a presença de personagens aumentados, ciborgues iguais a Shiroma. Que este primeiro romance de Jonas Peregrino seja apenas uma mostra do que está por vir.

Ramiro Giroldo é crítico literário, autor de Ditadura do prazer: sobre ficção científica e utopia.

Os livros brasileiros de ficção científica mais importantes

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Com o propósito de compor uma bibliografia básica da ficção científica brasileira, endereçada a qualquer leitor ou escritor que não conheça nada dessa tradição com mais de um século de existência, provoquei vários colegas de ofício com a seguinte pergunta:

Em sua opinião, quais são os cinco livros brasileiros de ficção científica mais importantes?

As indicações abaixo começam a desenhar o paideuma da FC brasuca. Mas esse resultado é parcial, pois a enquete ainda não terminou. Se você não enviou sua lista, agora é a hora.

Alvaro Domingues
1. Piscina livre, de André Carneiro (1980)
2. A cidade perdida, de Jeronymo Monteiro (1948)
3. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
4. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
5. O grito do sol sobre a cabeça, de Brontops Baruq (2012)

Ana Cristina Rodrigues
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. O doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1875)
3. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
5. A lição de anatomia do temível dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Ataíde Tartari
1. Páginas do futuro, organização de Braulio Tavares (2012)
2. Todos os portais, organização de Nelson de Oliveira (2012)
3. O fruto maduro da civilização, de Ivan Carlos Regina (1993)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
5. Estranhos contatos, organização de Roberto de Sousa Causo (1998)

Braulio Tavares
1. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
2. Histórias do acontecerá, organização de Gumercindo Rocha Dórea (1961)
3. Além do tempo e do espaço, organização de Álvaro Malheiros (1965)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. O vampiro de Nova Holanda, de Gerson Lodi-Ribeiro (1998)

Brontops Baruq
1. Diário da Guerra de São Paulo, de Fernando Bonassi (2007)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
3. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)
4. Caçador de apóstolos, de Leonel Caldela (2010)
5. O homem fragmentado, de Tibor Moricz (2014)

Caio Bezarias
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Fome, de Tibor Moricz (2008)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)
5. O alienista, de Machado de Assis (1881)

Carlos Angelo
1. Projeto Evolução, de Henrique Villibor Flory (1990)
2. Linha terminal, de Jorge Luiz Calife (1991)
3. Horizonte de eventos, de Jorge Luiz Calife (1986)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
5. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)

Carlos Orsi
1. Intempol, organização de Octavio Aragão (2000)
2. Histórias de Carla Cristina Pereira, de Gerson Lodi-Ribeiro (2012)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Piscina livre, de André Carneiro (1980)
5. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)

Cesar Silva
1. O alienista, de Machado de Assis (1881)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. O doutor Benignus, de Augusto Emilio Zaluar (1875)
4. Tangentes da realidade, de Jeronymo Monteiro (1969)
5. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Cláudia Oliveira
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)
3. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
4. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
5. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)

Davenir Viganon
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)
3. Os dias da peste, de Fábio Fernandes (2009)
4. O alienista, de Machado de Assis (1881)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Fábio Fernandes
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Zigurate, de Max Mallmann (2003)
5. A Terceira Expedição, de Daniel Fresnot (1987)

Gianpaolo Celli
1. Antologia FCdoB 2006-2007, organização de Pedro Rangel (2007)
2. Portal Solaris, organização de Nelson de Oliveira (2008)
3. Retrofuturismo, organização de Romeu Martins e Gianpaolo Celli (2012)
4. A mão que cria, de Octávio Aragão (2006)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Luiz Bras
1. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
2. Mnemomáquina, de Ronaldo Bressane (2014)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Amorquia, de André Carneiro (1991)
5. Os melhores contos brasileiros de ficção científica, organização de Roberto de Sousa Causo (2007)

Marcia Olivieri
1. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
2. Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz (1960)
3. Diário da nave perdida, de André Carneiro (1963)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)

Miguel Carqueija
1. Os bruzundangas, de Lima Barreto (1922)
2. Fuga para parte alguma, de Jeronymo Monteiro (1961)
3. 9225, de Sylvia Regina (1989)
4. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
5. Dário da nave perdida, de André Carneiro (1963)

Mustafá Ali Kanso
1. Confissões do inexplicável, de André Carneiro (2007)
2. Amorquia, de André Carneiro (1991)
3. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1991)
5. Piscina livre, de André Carneiro (1997)

Octavio Aragão
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1996)
2. Tempos de fúria, de Carlos Orsi (2005)
3. A máquina de Hyeronimus, de André Carneiro (1997)
4. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Ramiro Giroldo
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
3. As noites marcianas, de Fausto Cunha (1960)
4. O diálogo dos mundos, de Rubens Teixeira Scavone (1961)
5. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)

Ricardo Santos
1. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
2. Método prático da guerrilha, de Marcelo Ferroni (2010)
3. Encruzilhada, de Lúcio Manfredi (2015)
4. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyolla Brandão (1981)
5. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)

Roberto de Sousa Causo
1. A Amazônia misteriosa, de Gastão Cruls (1925)
2. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
3. O 31º peregrino, de Rubens Teixeira Scavone (1993)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (2008)
5. A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares (2014)

Rodrigo van Kampen
1. Filhos do fim do mundo, de Fábio Barreto (2013)
2. Metanfetaedro, de Alliah (2012)
3. Universo desconstruído, organização de Lady Sybylla e Aline Valek (2013)
4. A torre acima do véu, de Roberta Spindler (2014)
5. As cidades indizíveis, organização de Fábio Fernandes e Nelson de Oliveira (2011)

Ronaldo Bressane
1. Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981)
2. Santa Clara Poltergeist, de Fausto Fawcett (1991)
3. Piritas siderais, de Guilherme Kujawski (1994)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (2012)

Silvio Alexandre
1. Três meses no século 81, de Jeronymo Monteiro (1947)
2. Antologia brasileira de ficção científica, organização de Gumercindo Rocha Dorea (1961)
3. Amorquia, de André Carneiro (1991)
4. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
5. Outras histórias, de Gerson Lodi-Ribeiro (1997)

Tiago Castro
1. Fome, de Tibor Moricz (2008)
2. Os reis do Rio, de Rafael Lima (2012)
3. Fábulas do tempo e da eternidade, de Cristina Lasaitis (2008)
4. Espada da galáxia, de Marcelo Cassaro (1995)
5. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)

Tibor Moricz
1. Amorquia, de André Carneiro (1991)
2. A espinha dorsal da memória, de Braulio Tavares (1989)
4. Padrões de contato, de Jorge Luiz Calife (1985)
3. O par, de Roberto de Sousa Causo (2008)
5. Interface com o vampiro, de Fábio Fernandes (2000)

Rio: Zona de Guerra

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Leo Lopes
AVEC Editora
204 páginas
Lançado em 2014

A cidade do Rio de Janeiro fornece uma ambientação privilegiada, dentro da FC brasileira. Muitos dos contos satíricos de Berilo Neves foram ambientados na cidade, durante as décadas de 1920 e 30 ou em futuros que transformaram a paisagem carioca. Essa paisagem passa por um processo semelhante nos romances e histórias de FC hard de Jorge Luiz Calife, quase como porta para o esplendor da Via Láctea. As várias noveletas de Ivanir Calado – entre elas o clássico tupinipunk O altar dos nossos corações, de 1991 – também se passam na Cidade Maravilhosa, assim como a maioria dos textos tupinipunks de Fausto Fawcett, incluindo a famosa novela Santa Clara Poltergeist, também de 1991.

Rio: Zona de Guerra é o romance de estreia de Leo Lopes. Publicado pela editora sulista AVEC, é uma FC cyberpunk ambientada num Rio de Janeiro dividido entre a cidade protegida por uma segurança corporativa violenta e os excluídos na tal Zona de Guerra dominada por gangues armadas. É a exacerbação da divisão entre morro e asfalto, que a prefeitura e as UPPs falharam em abolir.

O herói é o detetive particular Carlos Freitas, ex-policial privado que vive fora dos muros protetores da cidade. O assassinato da amante de um figurão das megacorporações leva Freitas, contratado por Vivian Ballesta, uma prostituta amiga da morta, a deixar a área excluída e peitar o clima paranoico e traiçoeiro da cidade, com a ajuda eventual de sua ex-amante, Renata Braga, na cidade, e de várias figuras do submundo, na Zona de Guerra. O herói é seguido, agredido e metralhado a cada passo do caminho.

Freitas é um gorducho que vive dizendo a si mesmo para fazer dieta e exercício, mas sabe se virar com sua Princesa, uma pistola automática computadorizada, que funciona apenas com o reconhecimento do DNA do dono. Às vezes bonachão, às vezes ensimesmado, sempre dividido entre as mulheres de sua vida, Freitas é inflexível em sua escolha ética, embora não saibamos exatamente por que ele escolheu abandonar mulher e trabalho, para aderir aos excluídos.

Os elementos hard-boiled de mulheres fatais, muitas traições e o trânsito do herói ético pelo submundo quase não mergulham abaixo do superficial, mas há uma eficiência de envolvimento na leitura que me fez ceder à surpreendente carga emocional construída em torno do sofrimento e das decisões tomadas por Freitas. Especialmente depois do clímax, em que acontece o confronto com uma figura híbrida de humano e máquina, inteligência artificial que se considera o novo estágio da evolução humana. É tema herdado diretamente de Neuromancer, de William Gibson, mas tratado aqui com uma naturalidade e honestidade que me pareceram bem brasileiras.

Escrito em terceira pessoa com narrador onisciente (o que marca o texto com uma série de violações do ponto de vista dos personagens), Rio: Zona de Guerra tem boas qualidades de enredo e impulso para a frente na leitura, algo que nem sempre encontramos na FC nacional. O seu maior problema está nos excessos expressivos juvenis – pontuação múltipla, palavras e frases em caixa alta –, e num texto que merecia uma preparação editorial maior. O romance virou um filme dirigido por Alexandre Klemperer.

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.