Universo GalAxis Anual 2019

Universo GalAxis

Há mais de dez anos, Roberto Causo, um dos mais experientes e premiados escritores brasileiros de ficção científica, desenvolve um universo original de space opera: o Universo GalAxis, composto das séries As Lições do Matador e Shiroma, Matadora Ciborgue. Em 2018 foi formada a Sociedade GalAxis, composta por Causo, pelo artista Vagner Vargas e pelo designer Taira Yuji. Agora, graças ao Desire Studios de Yuji, o GalAxis tem a sua própria revista promocional, distribuída gratuitamente aos leitores brasileiros de ficção científica no formato PDF e também em papel. O seu objetivo é difundir o GalAxis e a ideia de uma FC brasileira de space opera.

A Universo GalAxis Anual 2019, com 140 páginas profusamente ilustradas pelo talento de Vagner Vargas, Sylvio Monteiro Deutsch, Gomes Brown e outros artistas, apresenta colaborações de Nelson de Oliveira, Camila Fernandes, Carlos Rocha, Paulo Soriano, Ramiro Giroldo, Luann Grigoletto e do próprio Roberto Causo com textos de ficção e não-ficção. Ao que se sabe, é a primeira revista dedicada a um universo brasileiro de ficção científica.

Com 30 anos de experiência, Roberto Causo tem mais de vinte livros publicados (incluindo e-books) e histórias vistas em 12 países. Já apareceu em duas antologias representativas da ficção científica latino-americana. É o ganhador do Projeto Nascente 11.

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[ Os editores ]

Contos reversos

Contos reversos

Romy Schinzare
Patuá Editora
160 páginas
Lançado em 2018

Conheci pessoalmente a escritora Romy Schinzare e seu marido Jorge Coelho, um antigo colega da USP, no evento Ficção científica brasileira: 60 anos de manifestos, quando ela me deu um exemplar do seu Contos reversos. O livro reúne histórias de fantástico literário, absurdismo, e daquela narrativa de FC ou fantasia que costumo chamar de “histórias tipo Além da imaginação”. Nelas, o absurdo ou o fantástico entram no cotidiano de alguma pessoa ou pessoas, de modo relativamente restrito e mais com um caráter pessoal e humano. Menos épico, digamos. Nesse tipo de história há espaço também para a tão necessária franqueza na denúncia e no comentário moral.

Assim, em Ministério da solidão tem-se uma fábula sobre uma gente meio mole que nasce em cachos, uma espécie de humanos artificiais, individualistas e consumistas, que, como as salamandras do livro de Karel Capek, vão se multiplicando e ameaçando dominar o mundo: os Bananas. O prédio é uma fábula distópica sobre essa construção que hierarquiza burocraticamente a vida em um mundo de alta tecnologia, como no livro de Ruth Bueno, Asilo nas torres (1979). Mais longo e desenvolvimento mais pausado, O colecionador é uma história de horror com uma atmosfera bem firmada, sobre uma assustadora coleção de corujas.

No curto Mrs. Liberty, a Estátua da Liberdade ganha vida em Nova York, antes de fugir, desiludida com o desvirtuamento pelas autoridades americanas. Em Os robôs de Marte, autômatos enviados ao Planeta Vermelho fundam a sua própria sociedade e retornam à Terra para capturar humanos, como nos velhos filmes B, e em Marte esses humanos e descendentes se tornam uma subclasse em revolta contra as máquinas. Canal 66 é bem Além da imaginação, menos panorâmico e mais centrado em personagens, tratando de um programa de tevê que captura, literalmente, os seus espectadores. Buraco de minhoca é uma FC sobre uma primeira missão espacial a Marte, narrada pelo ponto de vista de um cosmonauta russo que se depara com um portal dimensional no caminho.

A tendência internacionalista das histórias de Schinzare é repetida em Operação Baltimore, ambientada no Sul dos EUA e tratando da violência racial e de uma sociedade secreta destinada a combater, com ferro e fogo, a Ku Klux Klan. O vampiro de Santa Efigênia é outra história de horror e crime, enquanto Moça enluarada brinca com situações de ufologia mascarando um golpe imobiliário, e Rede ZZZ traz outra alegoria da alienação causada pela tevê e outros aparelhos que funcionam como muletas emocionais. Oziris é FC alegórica sobre alienígenas infiltrados na Terra, e finalmente Mutantes é outra narrativa irônica e alegórica que emprega elementos de ficção científica para tratar dos absurdos do cotidiano. Vale citar o prefácio de Caio Bezarias, autor de Totalidade pelo horror: o mito e a obra de Howard Phillips Lovecraft:

Romy Schinzare é um desses poucos autores em língua portuguesa que adotam o gênero fantástico sem se limitar a seus frequentes lugares comuns e clichês, inclusive usando-os com inteligência, vazando seus contos em uma linguagem cuidadosa, simples e desprendida, para mostrar que o impossível, o aterrador e o incrível estão muito mais perto de irromper em nossa realidade do que concebemos.”

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Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal Universo Galaxis. ]

Mestre das Marés

Mestre das Marés

Roberto de Sousa Causo
Editora Devir
288 páginas
Lançado em 2018

Meu primeiro contato imediato de altíssimo grau com a ficção científica foi agenciado, ainda na infância, pela televisão (em preto e branco): Viagem ao fundo do mar, Perdidos no espaço, Jornada nas estrelas, Túnel do tempo, Terra de gigantes… A ficção científica literária surgiu em meu radar somente na puberdade, anos depois das viciantes séries ianques. O início da leitura de contos e romances foi estimulado, nessa época, principalmente pelo cinema: Guerra nas estrelas, Contatos imediatos do terceiro grau, Galáctica: astronave de combate, Alien: o oitavo passageiro, Jornada nas estrelas: o filme

Quem acompanha de perto os dois modos de expressão, logo percebe que a diferença entre a FC audiovisual e a FC literária não é apenas estrutural (texto impresso numa página, de um lado − imagens em movimento e sonoplastia, do outro). Há uma perceptível diferença de inteligência narrativa. Estatisticamente, as séries e os filmes tendem a ser mais sensuais e pirotécnicos (atores bonitos, música vibrante, lutas coreografadas, explosões) e menos conceituais e abstratos (aprofundadas noções científicas, sutilezas filosóficas, inteligência tática, pragmatismo) do que os contos e os romances.

Nas space operas audiovisuais, por exemplo, nada me aborrece mais do que as batalhas no espaço. Quando duas frotas antagônicas se encontram, não há qualquer planejamento, não há a mínima estratégia. Os artilheiros e os pilotos parecem malucos chapados. Os caças voam bestamente atirando pra todos os lados. Em solo a situação não é melhor: as tropas parecem mais um bando de bárbaros desnorteados, gritando e disparando a torto e a direito.

Um dos elementos mais elaborados oferecidos pelo romance Mestre das Marés, de Roberto de Sousa Causo, é justamente o que falta nas minisséries e nos filmes de ficção científica militar: estratégia. Partindo do pressuposto de que uma guerra interplanetária é um empreendimento caríssimo, que consome recursos impensáveis de uma civilização, cada passo precisa ser analisado exaustivamente. Como numa complexa e demorada partida de xadrez.

Estamos no século 25 e nossas humanas − demasiado humanas − disputas político-econômicas espalharam-se pela galáxia. Além da natural competição com as civilizações alienígenas, seis blocos humanos competem entre si pela soberania: Latinoamérica, Euro-Rússia, Ásia Centro-Oceânica, Aliança Transatlântico-Pacífico, Ecumênia Árabe e Federação Africana.

A nova missão do capitão Jonas Peregrino e de seu grupo armado − os Jaguares − é resgatar uma equipe de cientistas refugiados num planeta atingido pela potência devastadora de um buraco negro próximo. Mas os cientistas encontraram nos subterrâneos do planeta − cenário similar ao inferno do célebre épico de Dante Alighieri − um misterioso artefato tadai, capaz de anular as ondas de choque sísmicas e cinéticas, e de interagir com o buraco negro num nível quântico. A missão de resgate envolve também capturar essa tecnologia avançada.

Os tadais são uma raça beligerante cujo principal propósito parece ser o extermínio da humanidade e das outras raças tecnológicas. As máquinas de combate tadais são tudo o que os humanos e seus aliados conhecem dessa civilização oculta, avessa ao diálogo. Faltando pouco tempo pra destruição total do planeta pelo buraco negro, enquanto Peregrino e seu grupo combatem os robôs nos subterrâneos, as naves jaguares rechaçam as forças inimigas na órbita elevada.

Entre os antagonistas de Peregrino há ainda uma jornalista determinada a escrever um perfil depreciativo do capitão e seus Jaguares. A voz narrativa passa estrategicamente da terceira pessoa para a primeira, sempre que as inquietações da jornalista entram em cena.

Os acontecimentos narrados em Mestre das Marés ocorrem logo depois dos eventos apresentados no romance Glória sombria, lançado em 2013 (leia a resenha). Nos dois romances, a estratégia militar − entrecruzada com a estratégia moral, política e econômica − é o ponto alto. As operações são planejadas com cuidado e a argúcia administra cada lance no tabuleiro da batalha. Pra nossa sorte, a space opera militar de Roberto de Sousa Causo relaciona-se fortemente com os games-de-estratégia de ação futurista, vertente do audiovisual bem mais inteligente do que as séries e os filmes.

Outra estratégia bem conduzida fortalece Glória Sombria e Mestre das Marés: a estratégia científica e tecnológica. Mesmo quando apresentadas na forma de recorrentes info-dumps, a ciência e a tecnologia que impulsionam as naves através do espaço, ampliam os sistemas de comunicação, movimentam as armaduras de combate e refinam os implantes biocibernéticos − entre dezenas de outros equipamentos − são fascinantes, dá gosto fechar os olhos e ficar imaginando.

Também dá gosto ler uma space opera em que a maioria dos personagens é parda, negra ou índia.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Selva Brasil

Selva Brasil

Roberto de Sousa Causo
Editora Draco
112 páginas
Lançado em 2010

Selva Brasil é uma ficção de realidade alternativa, que especula como seria o Brasil vinte anos depois da invasão militar brasileira das Guianas, na Fronteira Norte, ordenada pelo presidente Jânio Quadros. Nessa outra realidade, a consequência da invasão brasileira é a formação de uma coalizão constituída pelas nações Inglaterra, França, Holanda e Estados Unidos, que ataca os nossos soldados e domina parte significativa da Amazônia brasileira.

Causo nos apresenta uma história militar que conta com personagens profundos, distantes do estereótipo soldado-Rambo-overpower, se assemelhando mais a um soldado-Spielberg-será-que-sei-mesmo-o-que-estou-fazendo-aqui? Ao longo de sua narrativa, o autor demonstra conhecer profundamente os pormenores da vida militar, desde a descrição das armas utilizadas na época, até particularidades como o vestuário dos soldados, os costumes típicos do Amapá e as variantes linguísticas comuns na rotina de um desbravador das matas amazônicas de fronteira.

Reflexões como “Chega um momento em que você quer mesmo é deixar o corpo cair e escorregar encosta abaixo, se encolher atrás de uma pedra e apagar. É como um sujeito perdido num deserto. Se ele achar um arbusto com uma sombra ele deita ali e morre.”, ou ainda “Matar é amputar de alguém essa extensão toda da existência.” oferecem um pouco da imersão que a obra convida o leitor a desfrutar.

O tempero de ficção científica ao longo do romance não fica só na especulação de uma realidade alternativa. Há também todo um mistério em torno de um experimento militar que pode ser o elo entre a realidade paralela criada pelo autor e a nossa. O arco narrativo é bem construído, a ponto de ficarmos curiosos para saber como seria a vida privada naquela nova realidade de brasileiros um tanto quanto mais críticos e participativos na vida pública e política do país.

Fato igualmente curioso é que o personagem central da obra é um Souza outro, esse grafado com Z e não S, que remete a um simulacro possível de Roberto de Sousa Causo, em uma realidade na qual ele não teria desistido de sua carreira militar nem enveredado pela carreira de escritor. Dessa maneira, trata-se não só de uma realidade alternativa que muda o fluxo de macro-realidades, como também interfere nas micro-realidades interpessoais, de expressões micro-subjetivas.

Confesso que, no início da leitura, imaginei que algumas situações enfrentadas pelos personagens fossem gorduras desnecessárias na obra. No entanto, na medida em que o arco narrativo foi pouco a pouco se desvelando, passei a legitimar aquelas situações como experiências essenciais para potencializar toda a ambientação daquele espaço desconhecido para um garoto paulista de apartamento como eu.

O que também existe de voz crítica no livro é a reflexão em torno da complexa situação das fronteiras brasileiras na perspectiva geográfica, política e cultural. Enquanto brasileiro, senti ao longo da leitura que perdemos a sensibilidade em relação às etnias indígenas, e desconhecemos as complexidades e as riquezas de sua arqueologia cultural.

Fui educado pela estética sul-sudeste e Selva Brasil me proporcionou uma imersão inusitada em um território nacional pouco explorado por outras literaturas de ficção científica a que tive contato. Parafraseando Chimamanda Adichie: enquanto leitores críticos, devemos perseguir aquelas obras que nos convidam a fugir das histórias únicas sobre as culturas e as civilizações. Selva Brasil é, sem dúvida, uma ótima opção imersiva para esse exercício.

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Ricardo Celestino é professor e escritor, com mestrado em Linguística.

Adaptação do funcionário Ruam

Funcionário Ruam

Mauro Chaves
Editora Perspectiva
120 páginas
Lançado em 1975

A FC brasileira da década de 1970, dentro do Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982), é pouco conhecida e estudada. O capítulo de M. Elizabeth Ginway a respeito, em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no País do Futuro (2004), é um marco nesse estudo. Este Adaptação do funcionário Ruam é discutido lá. A Coleção Paralelos, em que o romance foi publicado, apresentou figurões como Isaac Bashevir Singer e Paulo Emílio Salles Gomes.

A história se passa numa São Paulo futura, com os pontos da cidade renomeados com uma dicção estrangeira, o que Afonso Schmidt já tinha feito no conto O último homem, de 1928. Chaves vai além, aglutinando termos do inglês, francês ou espanhol a palavras portuguesas. Há ecos do Modernismo de 22 nisso: “Que imediatamente Carliós saltou da esterola. Puxou então seu apitor. Pendido do pescoço, subeveste. E deu três longos apitos gesticulando para todos os transeuntes daquele plano de underground.” Há mais recursos formalistas: cada capítulo é desenvolvido em parágrafo único (narrado por um computador); a prosa poética assume alguns trechos; situações absurdistas são evocadas. O tom e fluxo da linguagem são o ponto forte do texto, que sobrevive às faltas da revisão.

A história começa com Ruam sendo um caxias da armitropa que mantém o regime da Potestade Brazileina, no futuro. Mas não consegue esquecer o triângulo bissexual (ordenado pelo regime) que viveu com a esposa Miraia e um soldado morto. O amor erótico dele por Miraia o faz voltar-se contra o regime, algo comum na distopia clássica desde o recém-relançado Nós (1924), de Yevgeny Zamyatin, mas aqui em cena homoerótica de absurda conferência de estratégia militar numa sauna com piscina.

O regime parece ter absorvido os elementos de tipicidade da cultura brasileira: o fotebol que todos são obrigados a jogar, onde quer que estejam, duas vezes por dia; o carnavel em que um robô tortura os dissidentes Contaminados; a mestiçagem purimarrona; e até mesmo a oposição: os Contaminados têm repartição nos prédios do governo. O livro flerta com a potestade como regime fantoche de conglomerados internacionais. Quando o regime cai, os conglomerados treinam os cidadãos em visões místicas de revelação religiosa – que também falham com Ruam. Ele então é jogado num buraco de Alice e vai parar na São Paulo contemporânea. É preso, internado em hospício e violado por um enfermeiro.

O livro flerta também com a noção de que tudo não passa de um surto esquizofrênico ou pesadelo, como em Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (também com a presença do sexo homossexual). Trata-se, no fim, de realidade sintética em que vários cenários são jogados na consciência de Ruam para fazê-lo conformar-se. Mais parecido, portanto, com os posteriores Jogo terminal (1988), de Floro Freitas de Andrade (também com homossexualismo e computador tirano), e o dickiano O alienado (2012), de Cirilo S. Lemos.

O pequeno livro de Mauro Chaves curiosamente se posiciona como entroncamento de diversos momentos da FC brasileira, por codificar muito da literatura pop brasuca da década de 1970, e como a ficção científica distópica foi por ela manipulada.

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Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal GalAxis ]

Os melhores contos brasileiros de ficção científica

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Roberto de Sousa Causo (organização)
Editora Devir
200 páginas
Lançado em 2007

Essa é a primeira de três antologias de ficção científica brasuca organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir. A segunda, de subtítulo Fronteiras, saiu em 2009 e a terceira, reunindo narrativas mais longas (novelas), em 2011. A trilogia oferece ao leitor vinte e nove ficções, de vinte autores fundamentais.

Na apresentação do primeiro volume, a história do gênero no Brasil é dividida em três períodos. O primeiro período, de produção mais ingênua e nacionalista, vai da segunda metade do século 19 até meados do 20. Esse é o período dos pioneiros, quase todos influenciados por Verne, Doyle e Wells.

O segundo período começa em 1960, com a coleção Ficção Científica GRD, do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, e termina no final da mesma década. Esse período, de produção mais autoconsciente e cosmopolita, é chamado de A Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira.

O terceiro período, de produção mais rica e diversificada, começa na década de 80 e continua até os dias de hoje, representando a Segunda e a Terceira Onda da FC brasuca. Bastante equilibradas, as antologias de Causo trazem o melhor de cada um desses períodos.

Não sou especialista no assunto, mas a sensação que eu tenho, diante da quantidade de saites, blogues e revistas online destinados ao gênero, é que a ficção científica brasileira está muito viva na internet, porém bastante fragilizada, quase moribunda, nas livrarias.

É claro que jamais deixou de acontecer o eterno pinga-pinga de coletâneas de contos e romances de autores nacionais. Mas a freqüência com que esses livros têm aparecido é pequena e insuficiente, incapaz de projetá-los pra fora de seu círculo alternativo e marginal, motivando mais e melhores leitores.

Nesse pinga-pinga, para cada cinco ou seis pingos medíocres, sem a mínima qualidade literária, há pelo menos um muito bom, inventivo, consistente, poético. No entanto, esses poucos autores talentosos que, com o passar dos anos, formam quase uma pequena multidão, não são reconhecidos como verdadeiros autores.

Seus livros não são resenhados nas principais revistas e nos principais cadernos culturais, e eles não são convidados para participar dos eventos literários mais prestigiados, reservados apenas aos que fazem, na falta de nome melhor, a alta literatura brasileira, essa mesma literatura que é ensinada nos colégios e nas faculdades de Letras.

O prestígio que prosadores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan desfrutam entre críticos, livreiros e leitores, autor algum de FC conseguiu ou está conseguindo desfrutar. A pergunta é: por quê? O que há em nossa ficção científica que a impede de sair do gueto, de ganhar as melhores estantes nas melhores livrarias e com isso ampliar seu público?

Essa não é uma pergunta retórica. Só seria se eu soubesse a resposta. A boa ficção científica brasileira é riquíssima. Há gente não apenas produzindo contos e romances interessantes, mas também refletindo e teorizando com perspicácia. Espero que vocês me ajudem a desvendar esse mistério. Também espero que possam, quem sabe, começar a desfazer esse nó editorial, esse por quê? desconfortável, que pra mim não faz sentido algum.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

Silicone XXI

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Alfredo Sirkis
Editora Record
200 páginas
Lançado em 1985

Mais conhecido como autor do relato de resistência Os carbonários, de 1981, Alfredo Sirkis foi militante estudantil, guerrilheiro, exilado, anistiado, fundador do Partido Verde no Brasil e deputado federal com vários mandatos. Seu primeiro e único romance, Silicone XXI, inaugura o tupinipunk, subgênero que combina elementos do cyberpunk (menos por suas realizações, e mais por suas influências em comum) com tendências do modernismo, do tropicalismo e da literatura pop nacional. Depois dele vieram livros como Santa Clara Poltergeist (1991), de Fausto Fawcett, Piritas siderais (1994), de Guilherme Kujawsky, e Distrito Federal (2014), de Luiz Bras.

Silicone XXI tem capa e ilustrações internas realizadas pelo artista franco-brasileiro de quadrinhos Al Voss, conhecido por colaborar com as revistas Métal Hurlant / Heavy Metal. Ambientada em 2019, a narrativa, quando não é abertamente cômica, é de burlesco baixo no seu tratamento de assuntos sérios, com leveza: um matador em série vem assassinando homossexuais com uma pistola laser privativa das forças armadas. Isso leva à investigação de uma operação secreta para exportar materiais nucleares a organizações terroristas no exterior e, mais tarde, a uma conspiração para envenenar com material radioativo a água potável do Rio de Janeiro.

Os protagonistas são o inspetor Zé Balduíno, policial negro de cinquenta e dois anos, e Lili “Brag” Braga, repórter televisiva de vinte e cinco anos, loura e sexualmente liberada, implacável na busca de notícias − uma espécie de antecessora da personagem Marcelina Hoffman do romance de Ian McDonald, Brasyl (2007), que seria chamado de tupinipunk pelo crítico Gary K. Wolfe da revista Locus. O vilão é Estrôncio Luz, ex-militar quarentão transformado em serial killer determinado a destruir o mundo. Seu nome é referência ao elemento radioativo estrôncio-90, e Sirkis o baseou no odioso general Newton Cruz, conhecido linha-dura dos tempos da ditadura, para satirizar a atitude de machismo estereotipado militar, ao dar ao vilão tendências homossexuais reprimidas (que ele abafa matando outros homossexuais) e um enorme pênis de silicone.

Há muito do espírito da literatura brasileira da década de 1970 no livro de Sirkis, principalmente com a referência às ideias tropicalistas e a inclusão de palavrões, sexo, referências pop e mudanças do tempo narrativo (do presente ao pretérito) e de pontos de vista. Mas em certos momentos soa como a prosa sobrecarregada de informações da escola cyberpunk, com algo de brasileiro misturado: “Favo de mel fosforescente, gorda margarida de neon no penhasco entre os seios de Dois Irmãos, com aquele letreiro de lasers coloridos dançando no céu de piche. A aproximação se dá por pouso automático na freqüência 36 TX.”

Mais importante, a ciência consegue fornecer alternativas econômicas e os seus paradigmas se misturam naturalmente com a espiritualidade. As pessoas são fundamentalmente boas − exceto por um bolsão de reacionários que acreditam no poder real e simbólico das armas atômicas. O impulso utópico de um Brasil mais pacífico e verde está em uma nova cultura que surge nas áreas rurais, comunidades que combinam alta tecnologia e práticas religiosas. Exemplifica o multiculturalismo tupinipunk no sincretismo e na mistura cultural. Um dos melhores exemplos do subgênero.

Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.