O fruto maduro da civilização

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Ivan Carlos Regina
Editora GRD
84 páginas
Lançado em 1993

Para os especialistas e até mesmo para o senso comum, o humor é uma forma de expressão secundária, considerada superficial, sempre atrás da seriedade profunda do drama e da tragédia. Esse preconceito contra o riso é antigo. Raramente pensamos numa comédia quando convidados a indicar as principais obras-primas da arte e da literatura. No campo da ficção científica não é diferente. Dois dos livros mais importantes da FC brasuca, porém, são obras marcadas pelo humor. Refiro-me à coletânea de contos O fruto maduro da civilização e ao romance Piritas siderais, de Guilherme Kujawski, lançado em 1994. Por ora comentarei apenas o primeiro.

Um novo manifesto antropofágico e dezoito narrativas − umas breves, outras brevíssimas − compõem a coletânea de Ivan Carlos Regina. Desse conjunto, mais da metade é excelente, e ao menos quatro − Quando Murgau A.M.A. Murgau, O caipora caipira e Quem viver verá, além da última, que dá título ao volume − mereciam ter sido cogitadas pra célebre antologia organizada por Italo Moriconi, Os cem melhores contos brasileiros do século.

A ficção mais longa tem apenas seis páginas. A mais curta, meia página. Duas narrativas são em versos, fato raro na ficção científica daqui e de fora. Aliás, a poesia atravessa praticamente o livro todo, além de ser o assunto do penúltimo conto.

Quando Murgau A.M.A. Murgau é um comovente libelo contra a homofobia, mesmo falando de uma espécie animal que habita Plutão. Mais adiante, dialogando com o Macunaíma, de Mário de Andrade, O caipora caipira convoca um conhecido personagem de nossa demonologia para uma irreverente cruzada ecológica. Esse conto curto defende na prática a teoria do Manifesto antropofágico da ficção científica brasileira que abre o volume.

Quem viver verá narra a não menos tragicômica odisseia de um luso-brasileiro que passa pelo processo de criopreservação a fim de descobrir “quão velho pode ser um homem?” E a ficção mais séria da coletânea é justamente O fruto maduro da civilização, feita de fragmentos apocalípticos que nos alertam para um fenômeno perverso, de degradação física e moral, que pode estar ocorrendo neste exato momento. Bela simetria: este conto é o reflexo escuro do manifesto inicial. Mas até mesmo essas páginas tão severas oferecem algo de bizarro, tangenciando o humor negro, muito apreciado pelos surrealistas de todas as nacionalidades.

Nas melhores ficções de Ivan, em prosa ou verso, o humor é do tipo filosófico, configurando uma resposta rápida e violenta à estupidez fisiológica de nossa sociedade de consumo. Seus alvos prediletos são a indústria cultural, as agências de propaganda, as megacorporações, a burocracia institucional, o moralismo religioso e os tabus sexuais. No panelão do canibal modernista, Ivan tempera certos clichês da pulp fiction anglófona − abdução, criogenia etc. − com a pimenta e o azeite dos trópicos.

Além da inclinação para o humor filosófico e o pitoresco brasileiro, outra coincidência aproxima a biografia de Ivan Carlos Regina e a de Guilherme Kujawski: o silêncio literário. Cada autor publicou um importante livro de ficção científica, nos anos 90, e só. Apesar da recepção bastante positiva, até agora novos livros de FC ainda não foram lançados por eles. Infelizmente.

Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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