Metanfetaedro

MetanfetaedroAlliah
Tarja Editorial
232 páginas
Lançado em 2012

Beleza e tristeza, prazer e dor se alternam, às vezes se confundem, formando uma liga fascinante. As narrativas reunidas na primeira coletânea de Alliah são hiperjanelas grotescas para os muitos tipos históricos de pressão, repressão e opressão articulados por nossa espécie predadora. Das oito ficções, apenas a última, justamente a que dá título ao volume, não soca o nariz do leitor com cenas explícitas de machismo, racismo, fascismo e outros ismos abjetos.

Metanfetaedro (conto escolhido pra integrar a antologia Ficções fractais, da Sesi-SP Editora), apresenta um explorador solitário chamado Luca − um alter ego new weird do matemático Luca Pacioli, amigo de Leonardo da Vinci −, que passa de uma dimensão surreal a outra, geométrico-onírica. Sua jornada meio abstrata meio poética segue das artes plásticas para a geometria não euclidiana, depois retorna, arrastando referências dessas duas esferas.

Nessa narrativa o leitor pode apreciar a grande habilidade de Alliah na criação de analogias sensoriais metafísicas. Um ótimo exemplo é a droga pan-óptica capaz de expandir nossa percepção. Tempos atrás, antes de sua aventura no interior de um rombicuboctaedro fantástico, o narrador-explorador inventou uma chave pra manipular a mente humana:

Chamava-se metanfetaedro, e era uma droga não convencional. Não se tratava de uma substância química para ser engolida ou injetada, mas de uma droga visual construída por nossas noções espaciais através de um mapa matemático de projeção, que alterava nossa percepção em níveis nunca antes alcançados.

A violência expressa nesse conto é epistemológica e ontológica (sujeito versus universo). Nossa trivial noção de causalidade desmancha no ar. Metanfetaedro reverbera no plano da ficção o moderníssimo princípio da incerteza que Nietzsche já defendia na coletânea de postagens mais provocativa da história da humanidade: “Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis. (…) Causa e efeito: essa dualidade não existe, jamais existiu ou existirá − na verdade, temos diante de nós um continuum do qual isolamos algumas partes.” (A gaia ciência)

Nos outros sete contos do livro a violência é física e psicológica (sujeito versus sujeito), gerando forte empatia. A autora projeta e denuncia, em realidades ora diabólicas ora sublimes, os conflitos de nossa própria realidade: fome, tortura, pilhagem, exploração sexual, escravidão, intolerância religiosa, dominação racial, genocídio, corrupção na política etc.

Moleque e Tupac Amaru III são os pesadelos lúcidos em que a velha máxima de Hobbes (atualizada) − o sujeito é o monstro metamorfo do sujeito − fica mais evidente.

A impressionante capacidade que os seres imaginários de Alliah têm de disseminar sofrimento é a mesma do primitivo sapiens. Na luta de todos contra todos, vencem os impulsos mais agressivos. São tensões e confrontos envolvendo sereias, geodroides, transaliens, cavernícolas, apolófilos, carniceiros, vermícolas, centáurides, bioconstrutos e crianças selvagens, em bolsões orgânicos de podridão, desertos vivos, jardins de nenúfares e metrópoles autofágicas.

Metanfetaedro (o livro) atualiza o catálogo de criaturas híbridas e bizarras de Bosch, Bruegel e Hoffmann, dos românticos e surrealistas, remoçando a tradição do grotesco. Se vivo fosse, Wolfgang Kayser certamente incluiria em seu célebre estudo sobre o tema um capítulo intitulado New weird, a respeito dessa escola artística e literária tão sinistra, da qual Alliah é um de nossos principais nomes.

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Luiz Bras é ficcionista e ensaísta, autor de Distrito federal, entre outros livros.

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