Os dias da peste

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Fábio Fernandes
Tarja Editorial
184 páginas
Lançado em 2009

Ficção científica decididamente não é o meu forte. Em termos numéricos, Os dias da peste foi o segundo romance do gênero a passar pelas minhas mãos calejadas de romances policiais, e antes dele houve apenas o Neuromancer. Uma coisa meio que levou à outra, já que os dois livros, além de certas semelhanças temáticas, têm outra coisa em comum: Fábio Fernandes. O professor da PUC-SP e pesquisador de cibercultura foi o tradutor do clássico de William Gibson e autor da obra aqui resenhada. Obra essa que trata principalmente da relação homem-máquina, um tema já explorado exaustivamente na ficção científica (não é preciso ser especialista para saber disso), mas aparentemente ainda não esgotado.

Dividido em três partes e abrangendo um período que vai de 2010 a 2016, o romance é todo composto por relatos de Artur, professor universitário e técnico em informática, compilados na forma de posts num blog, notas feitas a mão e um podcast. O ponto de partida é uma crise que vem alarmando todo o planeta: os computadores estão enlouquecendo. Executam comandos sem receber ordens, xingam seus donos, recusam-se a desligar. De alguma forma, as máquinas parecem estar tentando se comunicar com os humanos, o que só pode significar uma coisa: elas estão adquirindo consciência.

Como a humanidade se comportaria frente a um acontecimento dessas proporções? Que espécie de existência teriam os computadores? Ainda nos serviriam ou a relação entre as duas raças ficaria avariada agora que as máquinas podem pensar? Fábio Fernandes explora esses temas com o nível de seriedade necessário para tornar a história crível, mas sem levar-se a sério demais, alcançando um saudável equilíbrio que transforma Os dias da peste em boa literatura de entretenimento. A narração é ágil e despojada, o que combina com a ideia do blog e do podcast como plataformas iniciais de publicação dos diários de Artur − e a própria compilação deles no formato de livro tem um motivo detalhado logo nas primeiras páginas, numa das sacadas mais criativas do autor.

A divisão do romance funciona bem no sentido de criar expectativa em relação ao futuro. Cada uma das três partes compreende um determinado período de tempo durante o qual o mundo está se reorganizando perante a nova condição dos computadores. Os novos rumos da sociedade se tornam cada vez mais imprevisíveis à medida que a relação entre homem e máquina vai se estreitando, e diante disso é impossível não ficar se perguntando a cada página o que virá a seguir. O futuro criado por Fábio é fascinante por seus incríveis desdobramentos e, naturalmente, alarmante pelo mesmo motivo.

E lá está Artur, com seu blog, seu podcast, seus problemas com a balança, suas crises. Grande fã de ficção científica, escritor frustrado, ele tenta lidar com o novo. Detalhar sua participação nos eventos narrados seria estragar algumas das surpresas da trama, basta dizer que seu desenvolvimento se confunde com o da própria sociedade em que está inserido. Particularmente na terceira e última parte (o podcast), mais sombria em comparação com as outras, isso se mostra de maneira mais clara. E é também quando a história atinge seu clímax, bastante previsível (como já falei, não é um tema original), mas satisfatório, honrando todo o desenvolvimento.

Os dias da peste apresenta alguns poucos elementos que não me agradaram − em especial, as constantes pausas para explicações ou piadinhas entre parênteses −, mas nada que comprometa o resultado final. Por aqui, aguardo com ansiedade pela continuação, Os anos do silício.

Josué de Oliveira é assistente de edições digitais na editora Intrínseca.

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