Adaptação do funcionário Ruam

Funcionário Ruam

Mauro Chaves
Editora Perspectiva
120 páginas
Lançado em 1975

A FC brasileira da década de 1970, dentro do Ciclo de Utopias e Distopias (1972 a 1982), é pouco conhecida e estudada. O capítulo de M. Elizabeth Ginway a respeito, em Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no País do Futuro (2004), é um marco nesse estudo. Este Adaptação do funcionário Ruam é discutido lá. A Coleção Paralelos, em que o romance foi publicado, apresentou figurões como Isaac Bashevir Singer e Paulo Emílio Salles Gomes.

A história se passa numa São Paulo futura, com os pontos da cidade renomeados com uma dicção estrangeira, o que Afonso Schmidt já tinha feito no conto O último homem, de 1928. Chaves vai além, aglutinando termos do inglês, francês ou espanhol a palavras portuguesas. Há ecos do Modernismo de 22 nisso: “Que imediatamente Carliós saltou da esterola. Puxou então seu apitor. Pendido do pescoço, subeveste. E deu três longos apitos gesticulando para todos os transeuntes daquele plano de underground.” Há mais recursos formalistas: cada capítulo é desenvolvido em parágrafo único (narrado por um computador); a prosa poética assume alguns trechos; situações absurdistas são evocadas. O tom e fluxo da linguagem são o ponto forte do texto, que sobrevive às faltas da revisão.

A história começa com Ruam sendo um caxias da armitropa que mantém o regime da Potestade Brazileina, no futuro. Mas não consegue esquecer o triângulo bissexual (ordenado pelo regime) que viveu com a esposa Miraia e um soldado morto. O amor erótico dele por Miraia o faz voltar-se contra o regime, algo comum na distopia clássica desde o recém-relançado Nós (1924), de Yevgeny Zamyatin, mas aqui em cena homoerótica de absurda conferência de estratégia militar numa sauna com piscina.

O regime parece ter absorvido os elementos de tipicidade da cultura brasileira: o fotebol que todos são obrigados a jogar, onde quer que estejam, duas vezes por dia; o carnavel em que um robô tortura os dissidentes Contaminados; a mestiçagem purimarrona; e até mesmo a oposição: os Contaminados têm repartição nos prédios do governo. O livro flerta com a potestade como regime fantoche de conglomerados internacionais. Quando o regime cai, os conglomerados treinam os cidadãos em visões místicas de revelação religiosa – que também falham com Ruam. Ele então é jogado num buraco de Alice e vai parar na São Paulo contemporânea. É preso, internado em hospício e violado por um enfermeiro.

O livro flerta também com a noção de que tudo não passa de um surto esquizofrênico ou pesadelo, como em Miss Ferrovia 1999 (1982), de Dolabella Chagas (também com a presença do sexo homossexual). Trata-se, no fim, de realidade sintética em que vários cenários são jogados na consciência de Ruam para fazê-lo conformar-se. Mais parecido, portanto, com os posteriores Jogo terminal (1988), de Floro Freitas de Andrade (também com homossexualismo e computador tirano), e o dickiano O alienado (2012), de Cirilo S. Lemos.

O pequeno livro de Mauro Chaves curiosamente se posiciona como entroncamento de diversos momentos da FC brasileira, por codificar muito da literatura pop brasuca da década de 1970, e como a ficção científica distópica foi por ela manipulada.

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Roberto de Sousa Causo é ficcionista e pesquisador, autor de Shiroma: matadora ciborgue, entre outros livros.

[ Resenha publicada originalmente no portal GalAxis ]

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